O poder e a glória
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segunda-feira, 28 de abril de 1997
José Nêumanne 
Mesmo o mais benevolente analista do governo e o maior entusiasta do presidente Fernando Henrique Cardoso terá de reconhecer a enorme diferença existente entre suas atuações referentes a dois episódios, que, em teoria, deveriam merecer seu igual apoio. Se grande foi o esforço feito para aprovar a emenda constitucional da reeleição em janeiro, também grande tem sido o desleixo em relação à votação do substitutivo do relator Moreira Franco (PMDB-RJ) para a reforma administrativa.
Basta lembrar o que ocorreu em janeiro e comparar com o que está ocorrendo agora para chegar a essa conclusão. De fato, não deve nem pode ser fácil levar o Congresso a aprovar o fim de privilégios, que muitas vezes atingem os próprios parlamentares em sua pele. Basta lembrar o vexame do extrateto para parlamentares e altos executivos do Poder Executivo, que chegou a ser proposto para adoçar a boca da bancada dos múltiplos aposentados, mas terminou sendo rejeitado como um mostrengo, por causa da reação irada da opinião pública. Tal episódio é capaz de definir as voltas que precisam ser dadas para dourar a pílula das limitações necessárias para fazê-la passar pela goela do Legislativo.
Mas, também, não foi fácil chegar à esmagadora maioria que tornou possível a recandidatura de Fernando Henrique Cardoso no ano que vem. Basta lembrar o susto dado, logo no início do ano, pelos convencionais do PMDB, que resolveram recomendar o voto contra e decidiram adiar a decisão, contra os interesses do governo, do qual o partido já fazia parte.
Daquela vez, Fernando Henrique nem esperou pela tradicional truculência de seu ministro das Comunicações, Sérgio Motta, mas, pessoalmente, usou ele mesmo expressões muito brutas - sentiu-se traído e apunhalado pelas costas e, garantiu, não vou tolerar isso. Esse tom ricocheteou no partido, que não consegue deixar de ser oposição, mesmo estando bem alojado no primeiro escalão do governo federal. E feriu não apenas Paes de Andrade (CE), presidente nacional, e Orestes Quércia, grande cruzado do oposicionismo de resultados, mas até o doce senador José Sarney, então presidente do Congresso Nacional.
Mas o presidente não se limitou ao chicote, recorrendo também a afagos orçamentários. Tantos foram estes que não faltou, à época, munição aos críticos. Dizia-se que o voto do avicultor Roberto Pessoa (PFL-CE) valeu um apoio oficial a seu próprio setor empresarial. A bancada capixaba prometeu votar em troca da inclusão do Espírito Santo entre os estados que poderiam receber royalties da Petrobrás, por ser território de prospecção de petróleo. Paulo Lima (PFL-SP) entrou no Palácio do Planalto levando uma extensa lista de pedidos. Não se sabe se foram atendidos. Mas ele não escondeu de ninguém a euforia. Bem que poderia ter uma dessas por mês!, comentou, à saída do templo do poder máximo da República.
Pode ser que muitas dessas histórias pertençam ao folclore ou apenas façam parte do foguetório de uma oposição ressentida, que foi massacrada no plenário da Câmara nos dois turnos da votação. Mas a verdade é que agora oposicionista nenhum reclama do assédio do governo. Nem poderia. Enquanto o dispositivo que criava o contrato de emprego público, tornando mais flexível a estabilidade do funcionalismo, naufragava no plenário da Câmara, o presidente Fernando Henrique usava uma linguagem também dura, só que no Canadá. O noticiário também não registrou o acionamento da metralhadora giratória, guardada no estojo, do ministro das Comunicações, Sérgio Motta.
Tudo isso é muito estranho. Mesmo quem seja muito favorável à reeleição não pode deixar de reclamar da excessiva prioridade dada ao tema, em contraponto ao descaso com a reforma administrativa, talvez a mais importante. A vitória de qualquer reforma só será obtida se o governo fizer um esforço parecido com o dispendido no Congresso para conquistar a reeleição. O malogro da semana passada leva a crer que o presidente está disposto a trocar até as reformas constitucionais pela perspectiva de ficar mais quatro anos nos píncaros do poder e da glória.


