O poder do povo e dos meios de comunicação
Em certos momentos os cidadãos sentem-se impotentes diante de tanta arbitrariedade dos poderes públicos e manifestam-se descrentes das instituições. Os exemplos mostram que isto tem fundamento. Por isso, vitórias como esta de agora, representada pela anulação do aumento salarial em dobro dos senadores e deputados federais (e por extensão dos deputados estaduais), são luzes de esperança que se reacendem. E demonstram que se os poderes estão desacreditados, não há outro caminho de os fazer melhores senão pela mobilização popular.
Os homens públicos temem o povo, embora desacostumados a reações fortes porque elas raramente acontecem e isto criou neles uma crença de segurança mas quando a revolta da sociedade se manifesta com vigor os resultados aparecem. E assim a própria Justiça é sensibilizada e passa a agir mais velozmente. Como agora aconteceu. Se o que deveria ser um processo natural acontece dessa forma, então que os cidadãos se conscientizem do poder que têm e o utilizem. Um povo que reage à tirania nunca será subjugado e é capaz de reverter leis e normas inadequadas, derrubar muralhas do arbítrio e colocar a ferros os próprios detentores dos poderes se eles descumprem suas funções.
Se necessário, que se os destronem para salvar as instituições, porque sem elas intactas, o ordenamento legal será insustentável. As instituições não são os homens que as controlam mas o espírito que as sustentam. Quando a vigilância popular titubeia, os ditadores se levantam. Os poderes existem em função dos cidadãos e não o contrário. O povo é que é soberano e não os segmentos da sociedade que, guindados ao poder, exorbitam de suas atribuições. É, portanto, temor infundado imaginar que atos e decisões dos poderes não podem ser contestados. Porque está implícito nesse axioma um servilismo incompatível com a liberdade de manifestação dos cidadãos.
Nenhuma decisão é soberana a não ser a do povo, pela sua maioria. Se uma decisão é sábia, deve ser acatada; se não é, não é a instituição que deve ser desautorizada e combatida e sim a lei respectiva que lhe dá amparo, porque esta certamente não é boa. Esta é a sabedoria que deve prevalecer, porque os códigos é que devem adaptar-se às serventias da sociedade e não esta aos códigos. Será sempre o povo que, em derradeira instância, tomará as decisões, porque os titulares dos poderes são apenas representações temporárias e renováveis.
No presente caso do arbítrio dos parlamentares o povo reagiu, e isto foi o suficiente para mudar o rumo das coisas. A própria Justiça agiu, estribada nos regimentos mas também na caudal da vontade popular. O brado do povo nas ruas e por via dos veículos de comunicação produzem grande efeito moral, então é preciso adotar posturas assim com freqüência e destemidamente. Porque a agressividade dos poderes contra o povo tem sido infinitamente maior.





