O poder das imagens
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 1997
Fernando José Dias da Silva 
Se a reforma da Previdência Social, a reforma administrativa, a reforma política, a reforma do Judiciário, a reforma tributária são tão importantes para o País, por que elas estão emperradas?
Se as reformas são necessárias para que o Estado tenha melhores condições para cuidar de problemas especificamente seus (educação, saúde e segurança), por que elas não saem do lugar?
Talvez seja problema de comunicação. Hoje em dia tudo que não dá certo é culpa da forma como a comunicação foi feita. Mas pode ser outras coisa mais séria: a desconfiança que existe nas imagens que são passadas. A comunicação pode ser perfeita, mas talvez o poder das imagens esteja declinando, talvez as pessoas estejam perdendo a fé naquilo que lhes é mostrado.
Um livrinho simpático e instigante, chamado O Estado Sedutor, de Régis Debray, diz que nós entramos na era da suspeição. O poder em nossos dias passa por essa espécie muito peculiar de imagens, que é a imagem eletrônica, onde interfere politicamente o produtor de símbolos, aquele que tenta mostrar uma imagem. Mas segundo Debray, o olhar, além de sua base fisiológica, tem uma base cultural. De maneira que não vemos sempre a mesma imagem ou as mesmas coisas na mesma imagem.
E, talvez, nós tenhamos atingindo o último estágio dessa cadeia histórica do olhar: não acreditarmos mais naquilo que estamos vendo. O Estado ficou narcísico, salva as aparências, mas perde suas referências e, com elas, os pontos de contato com a população e as suas demandas. Por isso o ceticismo com relação a qualquer imagem que é apresentada por esse Estado. Régis Debray é francês, tem uma quilometragem boa na vida política.
Foi líder estudantil, companheiro de Che Guevara na guerrilha da Bolívia e participou do governo Miterrand. Se Deray pensa assim, o que imaginar do brasileiro médio que a toda hora vê denúncia de desvios de verbas, de escândalos com dinheiro público feitos através de tenebrosas transações. Será que esse brasileiro médio vai acreditar, em primeiro lugar, que as reformas vão mesmo servir para beneficiar o País e não um pequeno grupo que sempre se dá bem; depois, que o dinheiro obtido pelo emagrecimento do Estado seja mesmo revertido educação, saúde e segurança. Nem a velhinha de Taubaté, nem Ermelindo o Idiota.
Depois, a classe política não tem contribuído um miligrama melhorar esse estado de coisas. O espetáculo que eles estão dando no momento é triste. O PT cheio de canibais e os partidos que apóiam o governo também se matando para conseguir espaço e benesses junto ao Palácio do Planalto.
Como não há discussão de que reformas precisam ser feitas, não há dúvida que é legítimo o político buscar o poder, faz parte do jogo. Num regime democrático que fique bem claro não há nem mal se opondo, mas sim distintas forças, todas elas legítimas sejam do capital ou do trabalho, privatizantes ou estatizantes.
O que não dá, o que desestabiliza, são forças da mesma facção se esmurrando entre si. Aí uma unha encravada, um calo, um joanete vira crise de vida ou morte. O encontro de Paulo Maluf com Fernando Henrique e os cargos que estão nas mãos de PFL estão gerando essas disfunções.


