Ensina José Ortega y Gasset, que ‘‘a imaginação é o poder libertador que o homem tem. Um povo é capaz de constituir um Estado na medida que saiba imaginar’’. Nada mais certo, basta um olhar retrospectivo na História para constatar que foram os povos mais imaginativos que prosperaram e souberam lidar com o mundo através de suas invenções, de suas conquistas, de sua capacidade de buscar o conhecimento.
Pode-se, inclusive, perceber, que em graus variados existem povos inventores e povos que se limitam a repetir invenções. Naturalmente, tudo na vida é um processo e não existem inventores nem ‘‘repetidores’’ puros. Mas há os mais imaginativos e estes são os vencedores, são os que conseguem transformar os sonhos em realidade.
Grandes civilizações foram extremamente imaginativas. Num olhar retrospectivo sobre o passado longínquo agigantam-se na memória o Egito, a Índia, a Pérsia, a Babilônia, a China, a Grécia, o Império Romano. Das religiões geradoras dos seus sistemas filosóficos, ao pragmatismo da guerra e da arte de governar, esses faróis da antiguidade projetaram a luz que hoje ilumina e é ampliada por novas civilizações.
Com olhar histórico atual, podemos constatar entre os povos mais imaginativos, os ingleses. Sobre eles escreveu Carlos Rangel, ressaltando sua energia nacional quase inacreditável e os aspectos positivos de sua civilização tais como: ‘‘.... uma criatividade política sem igual, um formidável progresso econômico, técnico, intelectual e militar, a grande literatura escrita na língua de um pequeno grupo de insulanos, no século 15, hoje tornada língua universal, graças a seus esforços e ao seu gênio, bem como o de seus descendentes’’. Rangel arremata dizendo que, em suma, ‘‘a Inglaterra é o que podemos chamar de uma sociedade livre e civilizada’’.
Entre os descendentes mais imaginativos e poderosos dos ingleses estão, sem dúvida, os norte-americanos, que os latino-americanos tanto invejam. Inclusive, a América Latina atribui aos Estados Unidos suas mazelas, mesmo que estas tenham surgido anteriormente às relações com a hoje superpotência mundial, tais como: corrupção endêmica; revoluções inglórias; ditaduras originadas no caudilhismo; Estados patrimonialistas, clientelistas e paternalistas; nacionalismo exacerbado, mentalidade avessa ao trabalho metódico e disciplinado. Mas sem dúvida o que mais faltou aos latino-americanos foi o poder da imaginação, que transformou as insignificantes colônias inglesas da América do Norte no que elas são hoje.
Ortega y Gasset afirmou que a história da Espanha, salvo alguns intervalos, foi a historia de um fracasso. Retomando a idéia, diria que a história dos países latino-americanos, salvo alguns intervalos, é a história de um fiasco, e o que ocorre agora na Argentina é exemplo disto. Entretanto, não é a primeira vez que tragédias político-econômicas deste tipo ocorrem para os argentinos.
Em 1880, a Argentina usufruiu de sua Época de Ouro. Foi um período de prosperidade durante o qual a atenuação dos conflitos e o comércio estrangeiro – em especial o britânico – e a imigração acabaram por conduzir o país a grandes mudanças e transformações.
Por volta de 1914, a Argentina se torna um dos países mais prósperos do mundo. Sua renda per capita era igual à da Alemanha, dos Países Baixos, e superior à da Espanha, Itália, Suécia e Suíça, sendo que Buenos Aires se tornou a segunda cidade mais importante do Litoral atlântico depois de Nova York. Infelizmente, porém, a Argentina é a herança não apenas de um Domingo Faustino Sarmiento, mas de Juan Manuel de Rosas, de um Juan Domingo Perón e de outros caudilhos aos quais nunca faltou o traço do populismo e sua decorrentes políticas equivocadas.
O que ocorre hoje na Argentina não tem nada a ver com os Estados Unidos, com o FMI ou com o neoliberalismo, como gostam de apregoar no Brasil certas nulidades de partidos de oposição. O que acontece na Argentina e em outros países latino-americanos, decorre de sua própria personalidade cultural, de seus sistemas de valores e de sua falta de imaginação.
No Brasil, dois homens extremamente imaginativos, competentes e de mentes lúcidas mantém o País num intervalo auspicioso: o ministro da Fazenda Pedro Malan e o presidente do Banco Central Armínio Fraga. A partir das próximas eleições presidenciais não é possível prever o que virá. Tudo vai depender da imaginação do povo e dos novos governantes.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária

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