‘‘Aquele é um incompetente’’! - dizemos. E com estas palavras, sempre carregadas de convicção - portanto, um forte poder criador - o fazemos mais incompetente ainda, se ele já estiver fragilizado e, em tais condições, indefeso ante esse dardo certeiro. ‘‘Aquele é um fracassado’’ - afirmamos. E o tornamos ainda mais, pela força da palavra. ‘‘Aquele é um vida torta’’ - declaramos, irresponsavelmente, e o tornamos mais torto. ‘‘Aquele não vai pra frente’’ - decretamos, e tornamos mais vagarosos os seus passos. ‘‘Aquele é um azarado’’ - sentenciamos, e ao proferir essas palavras o carregamos de mais azar. Temos uma tendência a rotular as pessoas, com muito mais frequência ressaltando seus aspectos negativos. E quando essas pessoas-alvo têm idênticos pontos de vista sobre as demais, portanto vibrando na mesma ressonância negativa, dificilmente não serão atingidas.
Mas o grande perigo desse uso irrefletido do poder da palavra, do pensamento e do sentimento - porque as três coisas caminham juntas, formam uma só vertente - é que tudo aquilo que emitimos vai e retorna, como um bumerangue, recaindo sobre nós próprios. E se a pessoa a quem arremessamos nosso juízo não estiver vulnerável, mas protegida por sua couraça moral, portanto rejeitando a condição que lhe queremos impingir, a maldição contida naquilo que proferimos retornará sobre nós com maior intensidade. Porque o círculo precisa fechar-se e alguém tem que pagar essa conta...
Quando ressaltamos os defeitos dos outros é porque, primeiro, os identificamos em nós. Pessoas de sucesso não se ocupam com insucessos alheios. A mente delas está voltada para outras direções. Quando temos certa propensão à incompetência (e de qualquer forma esta será sempre uma atitude mental, nunca a realidade de nosso ser) enxergamos mais nitidamente a incompetência nos outros; se cultuamos em nós idéias de fracasso, ficamos muito fixados no fracasso dos outros; se levamos uma vida sinuosa, tendemos a enxergar a vida-torta dos outros, e aí os pioramos, piorando a nós próprios.
A verdade é que temos dedicado muito do nosso tempo em cultivar a maledicência e o negativismo, e com isto os disseminamos ainda mais, causamos grandes estragos a outrem e a nós próprios, quando gastaríamos a mesma energia cultivando as virtudes, com resultados inversos e surpreendentes.
Temos encontrado em todos os cantos pessoas muito angustiadas e negativistas. Piores ainda são aquelas que justificam o pessimismo como medida de prudência, para não passar-se de desavisadas... Parece que é bom, para elas, prever sempre o pior, que assim quando o melhor chegar será lucro... Mal sabem que ao pensarem o pior, e ainda manifestando isto pelo poder criador da palavra, atraem o pior, tornando-o realidade. Os males são produtos da mente individual, que se expandem e envolvem a mente coletiva, propagam-se, cristalizam-se.
O mau emprego da palavra é uma forma de violência, e enfatizar as imperfeições dos nossos semelhantes é fertilizar o campo para que elas se intensifiquem em quem atingimos e recaiam também sobre nós próprios.
Não somos tão maus. Somos é desatentos para com nossos destemperos verbais e nossas formas-pensamento carregadas de negativismo e maledicência. O que pensamos e dizemos concretiza-se.
As pessoas não acreditam muito nesse poder, mas se entregam às orações, pedindo as bênçãos dos céus, e o que é isto senão o uso do poder do pensamento, do sentimento, da palavra? E a maledicência, o julgamento, o rótulo que se põe nas pessoas, o que é senão uma oração em contrário? Se a prece, manifestada pela palavra, tem poder, mesmo que muitas vezes a façamos sem fervor e sem firme convicção - imagine-se a palavra carregada daquela força que se dá ao maldizer alguém! Então, se cremos no poder da palavra direcionada para o bem, por que utilizamos tão irresponsavelmente a mesma ferramenta para o sentido do mal?
Nesta Páscoa vamos refletir sobre o poder criador da palavra, e fazer o experimento de, pelo menos por um mês, não maldizer o próximo, não manifestar pensamentos e sentimentos negativos, não ficar em atitude de expectativa ante crises imaginárias, mas ao contrário, buscar enxergar as virtudes das pessoas e o lado belo e mágico da vida!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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