Ao eleger o novo Presidente da República, um trabalhador, migrante nordestino, o País dá um passo inédito em sua história. Supera uma etapa marcante do processo de amadurecimento democrático de nossas instituições e de nossa sociedade. Luis Inácio Lula da Silva ganhou o direito de personificar uma alternativa ao governo atual. Seu maior desafio é o de protagonizar uma mudança responsável e consciente, em escala nacional e internacional. A travessia será, certamente, complexa. Os desafios são enormes, mas nunca é demais lembrar que o mandato com forte apoio popular confere legitimidade incontestável. E o PMDB como uma das maiores instituições partidárias deste País tem um papel fundamental neste momento.
O partido saiu do pleito renovado, fortalecido. Continua com a maior bancada no Senado Federal e com uma expressiva bancada na Câmara dos Deputados. Em janeiro, o PMDB passará a controlar os três Estados que compõem o Cone Sul do Brasil e que são política e economicamente estratégicos. Além disso, o partido ganhou no Distrito Federal e teve uma expressiva vitória em Pernambuco. Esta força peemedebista que se confirma nos Estados vai ter, certamente, um papel relevante na discussão dos novos rumos do partido. E o PMDB precisa, antes de tomar qualquer posição, conhecer as propostas e o perfil da nova equipe de governo.
A palavra agora não é nossa. O momento é do Presidente eleito. Depois, se provocados, deveremos consultar o partido e decidir o que fazer e como fazer. Não interessa ao PMDB nem a ninguém que o novo governo se revele incapaz de enfrentar, com eficiência, os enormes problemas que nos aguardam. O País, e os brasileiros, seriam as maiores vítimas de um eventual fracasso. Uma das qualidades de qualquer agremiação política deve ser o equilíbrio, o senso político com real espírito público. O PMDB tem a responsabilidade de no momento em que o próximo Governo enfrenta a transição, ajudar no que puder, naquilo que for convergente com sua linha programática, sem abdicar do direito de divergir e até mesmo de criticar o que considerar errado.
O partido carece, é verdade, de integração, de comunhão de idéias, mas sempre teve como norte a busca da unidade, mesmo que feita em meio à pluralidade de opiniões e de pensamentos. Mas temos de fazer da disciplina partidária uma questão fundamental, evitando com isso, a transformação do PMDB em federação de grupos e segmentos.
É fundamental reconstruir canais orgânicos com a sociedade, com os outros partidos, com os empresários, com os investidores, com trabalhadores, com os sindicatos, com as centrais, com os movimentos sociais e com as ONGs. Num passado recente, o partido promoveu a defesa dos direitos civis e, agora, evolui para garantir os direitos sociais. O PMDB há de apresentar uma agenda afirmativa, propositiva e reformista, calcada na confiança renovada do País e na capacidade que o partido possui de dar respostas aos desafios que lhe forem colocados.
RENAN CALHEIROS, é líder do PMDB no Senado e ex-ministro da Justiça

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