O plebiscito da Sercomtel
Mal o futuro prefeito e o igualmente futuro presidente da Sercomtel foram conhecidos, já se especula sobre a possibilidade da venda de uma das empresas de telefonia da nossa cidade, mais especificamente a que cuida da telecomunicação celular. Alguns, sem que jamais tenham tido qualquer contato com a matéria, já defendem que a venda é inevitável; outros expressam feições de entendidos do assunto e desfiam argumentos contra a concretização do negócio, que sequer foi ainda profundamente estudado. Os vereadores, tanto os recém-diplomados quanto os veteranos, defendem a lei que estabelece a necessidade de um plebiscito para autorizar que se prossigam as conversações.
Plebiscito quer dizer, segundo o Aurélio, um decreto do povo romano estabelecido em comícios ou, mais modernamente, uma resolução submetida à apreciação do povo, e mais ainda, voto do povo, por sim ou não, sobre uma proposta que lhe seja apresentada.
Em qualquer uma das definições acima apresentadas, isso significa democracia em seu exercício mais pleno, o que por si só já me faz sorrir de felicidade, pois minha luta em todos os sentidos tem sido sempre voltada para isso, seja na forma de instruir meus filhos e alunos ou mesmo jogando conversa fora com alguém. No entanto, é necessário que o povo seja corretamente informado antes de simplesmente dizer sim ou não para uma matéria que de tão intrincada, até o atual presidente da empresa, tanto quanto seu sucessor, ambos funcionários de carreira da empresa e totalmente atualizados em relação ao cenário nacional das telecomunicações, ainda não têm segurança para afirmar qual das duas opções seria a recomendável para a empresa e, consequentemente, para o município e toda a sociedade londrinense.
Já que mencionamos a Roma dos Césares, é absolutamente necessário lembrar que aquele Império foi construído com base na afirmação que tanto os governantes quanto o povo tinham em seu íntimo de que o que fizessem em vida ecoaria pela eternidade, como de fato aconteceu, caso contrário não estariam aqui sendo comentados tantos anos depois.
O medo que toma conta da cidade em relação à empresa é a chegada da data em que teremos a livre concorrência no setor de telecomunicações, que se aproxima velozmente sendo irreversível sua postergação. Como se isso também não tivesse acontecido com diversos outros setores da economia após o processo de transformação do mundo ocorrido via globalização econômica e mercadológica. Praticamente todos os setores passaram a sofrer pressões da concorrência estrangeira, e continuam aí, vencendo as barreiras de cada dia e ainda sobrevivendo no novo cenário, e com certeza fazendo com que seus feitos ecoem pela eternidade.
A Sercomtel é uma empresa dotada dos mais brilhantes recursos humanos disponíveis no mercado e isso, por si só, a torna viável diante dos olhos de qualquer concorrente que dela se aproxime. Uma empresa deve, continuamente, monitorar as estratégias de seus concorrentes. Aqueles plenos de recursos devem também revisar suas estratégias no decorrer do tempo e ir criando diferenciais em seus produtos em relação aquilo que a concorrência rapidamente assimilará e simplesmente copiará. Vejam a reação rápida da empresa local em relação ao preço da Global Telecom, vendendo telefones a R$ 1,99 desde o último domingo!
Um dos passos no Planejamento Estratégico de Marketing de uma empresa envolve duas decisões complementares: como posicionar um produto no mercado e como distingui-lo dos da concorrência. Uma companhia precisa criar uma imagem de seu produto na mente dos consumidores. Como consultor, acredito que as empresas podem obter uma vantagem diferencial que a distinguiria da concorrência ao desenvolver uma ou mais das quatro dimensões seguintes - o melhor preço, a maior variedade, o produto mais quente (mais na moda) e a loja mais fácil de se comprar.
Por outro lado, a venda da empresa sanaria imediatamente as combalidas finanças do município, tão vilipendiadas pelo ímprobo cassado e sua quadrilha, e permitiria o imediato início das obras de infra-estrutura tão necessárias a nossa cidade e que tenho certeza serão cedo ou tarde realizadas pelo prefeito eleito e sua valorosa equipe, nos quais o povo tanto confia.
Finalizando, fica a indagação: teria o povo londrinense, em sua totalidade, instrumentos, fundamentos econômicos e informações suficientes para julgar tão importante matéria com um simples sim ou não, deixando os ecos dessa atitude, certa ou errada, para a eternidade? Responsabilidade maior será daqueles que devolverem ao povo através desse plebiscito a delegação que lhes foi confiada pelas urnas de tomar as decisões por eles.
- RICARDO PROCHET é graduado em administração pública pela FGV e pós-graduado em administração, controladoria e finanças pela FGV, professor universitário, consultor de empresas em Londrina. E-mail: [email protected]





