O planeta dos homens
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de agosto de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Nesta semana, o mega aconteci mento que mo bilizou todos os holofotes dos meios de comu nicação, foi o se questro de Patrí cia Abravanel, filha do empresário e apresentador de televisão Silvio Santos. Num segundo e inesperado ato, o próprio Silvio Santos foi mantido durante horas como refém sob a mira do revólver de um dos sequestradores da filha, no interior de sua casa, em São Paulo. Paralelamente ao duplo episódio, uma série de sequestros continuavam a avassalar anonimamente sobretudo as megalópoles de São Paulo e Rio de Janeiro, e isso merece algumas considerações sobre a violência no tocante à sua essência e à sua expansão.
A essência da violência nos homens tem a mesma equivalência da que existe nos outros animais, mas como uma diferença fundamental: na violência dos chamados irracionais predomina o mecanismo da sobrevivência e, portanto, da perpetuação da espécie; nos humanos, a violência, tanto individual quanto coletiva é racional, o que quer dizer que somos infinitamente mais perigosos, porquanto dotados da violência consciente, planejada e ajustada a interesses de poder.
Justamente para impedir sua autodestruição, os indivíduos criaram ao longo do tempo o Estado de onde emanam a autoridade governamental e as leis. Simultaneamente, plasmaram os mecanismos socializantes como a família, a escola, a Igreja, de onde brotaram valores, comportamentos e normas capazes de compatibilizar os instintos egoístas, hedonistas e violentos do homem com a convivência social. Sem isso existiria o que Thomas Hobbes chamou de ''estado de natureza'', no qual ''o homem é o lobo para o homem''.
Nesse século XXI, onde deságua e prossegue o longo processo de avanços científicos e tecnológicos, se por um lado a humanidade como um todo é enormemente beneficiada pelo progresso já alcançado, por outro assistimos a expansão de formas de violência adaptadas a um mundo urbanizado, onde Babéis explodem em tensões e conflitos espelhados no terror dos sequestros, assaltos, linchamentos e outros atos criminosos, disseminados sobretudo nas metrópoles contra cidadãos indefesos e inseguros.
Várias são as explicações sobre a causa da violência na sociedade moderna, e Slavoj Zizek, filósofo esloveno, lembra que os ''teóricos da sociedade de risco'' atribuem os atos violentos à ''falta de valores familiares tradicionais, capazes de preparar o indivíduo para enfrentar a dinâmica da vida social moderna''.
Outros enfatizam as pressões insuportáveis da sociedade atual. Em países como o nosso, prefere-se lembrar as diferenças sociais e apontar a pobreza como causa da criminalidade urbana, o que se em parte é verdadeiro não deixa de gerar algumas análises superficiais e politizadas, porquanto o pobre em si não é um criminoso nato, apesar do entorno da miséria induzir muitas vezes a saídas respaldadas na criminalidade, portanto, no recurso à violência.
De todo modo, mesmo diante das maravilhas do nosso admirável mundo novo, cabe indagar se esse planeta dos homens não se transformará futuramente no planeta dos macacos, como no filme, capazes de agir como homens mas mantendo a característica de sua animalidade como sintoma de involução.
De qualquer maneira, o sequestro que atingiu um homem como Síilvio Santos e sua família (sua irmã também foi sequestrada em maio de 1992, no Rio de Janeiro), que detém enorme popularidade e poder econômico, demonstra a enorme vulnerabilidade do cidadão comum, inclusive o de classe média que está também se tornando vítima do crime hediondo do sequestro.
Além do mais, quando se reflete sobre a violência, percebe-se que está faltando nesse País autoridade, que jamais, é claro, deve ser confundida com autoritarismo. Falta ainda a aplicação mais rigorosa e eficiente das leis, o que nada tem a ver com o clima inquisitorial em curso. Faltam policiais mais bem pagos, mais bem treinados e mais bem armados. Falta respeito à vida. Faltam lideranças capazes de organizar satisfatoriamente os rumos que a Nação deve seguir. Finalmente, é preciso que não nos falte sensibilidade, para que não cometamos o erro de banalizar a violência como fato corriqueiro. Se isso ocorrer, seremos todos reféns da violência.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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