O pior momento para vender a Copel
Na área de consultoria em energia desde 1989, há muito alertamos grandes consumidores para a importância de garantirem o suprimento de eletricidade e a importância dos investimentos em autoprodução de energia e em eficientização do seu uso. Nossos estudos sempre utilizaram trabalhos de confiabilidade, de estudiosos que dedicam a vida a estudar o setor elétrico brasileiro. Mas, naquele tempo, falar qualquer coisa que pudesse questionar os rumos da privatização era assim como um pecado. Coisa de comunista...
Bastou mudar de ministro para a verdade começar a ir para o Jornal Nacional, o Bom Dia Brasil e as primeiras páginas de jornais: a escassez é uma
perspectiva concreta, a ameaçar não só o crescimento da indústria como a sua competitividade. Ou será que alguém, além do governo federal acredita que vendendo as geradoras as tarifas vão baixar?
Na Inglaterra as tarifas baixaram 20% depois da privatização, dirá o discurso chapa- branca. Mas um ano antes de vender, o governo subiu 7%! E depois da privatização o governo retirou os 10% de subsídio que os consumidores pagavam para o desacreditado programa nuclear inglês. Falta dizer que na maioria dos países onde esta riqueza, a hidreletricidade é significativa na matriz energética, toda a hidreletricidade gerada é federal, municipal ou estadual: a começar pelos EUA, França, Itália, Portugal, Suécia, Noruega e Finlândia.
Insistir em privatizar as geradoras hidrelétricas, neste momento, é deixar a indústria nacional à mercê dos felizardos que comprarem um mercado facilmente cartelizável e, ainda por cima, com perspectiva de carência. A Califórnia foi só o começo. Há dezoito outros Estados americanos interrompendo seus programas de desregulamentação. Isto não deu certo lá fora. É preciso ver o que não deu certo, com cuidado.
E não é o silêncio olímpico das entidades da indústria que vai resolver quando a escassez chegar, os preços subirem e não pudermos fazer nada, porque teremos vendido as geradoras no pior momento possível: na falta do produto, quando o preço deverá subir, segundo todos os especialistas de mercado estão considerando.
Exigir segurança e garantia de fornecimento a preços razoáveis é um mínimo que deve fazer quem produz, tem contratos a cumprir, preços de mercado a respeitar e está empurrando esse país para a frente. Em Santa Catarina, altamente industrializada, a posição da Federação das Indústrias foi essencial para convencer o governador Esperidião Amin a não vender a Celesc Distribuição. Mas e no resto do Brasil, por que nossa indústria finge que não vê o buraco em que a teimosia a está jogando?
Dar a um pequeno número de grupos o poder de controlar preços num setor que é
estratégico para a nossa indústria, nesse momento, não tem outro nome: é loucura. Ainda mais se os felizardos compradores de nossas geradoras forem sócios lá fora dos concorrentes do nosso aço, dos nossos aviões, do nosso papel de imprensa etc.
- IVO AUGUSTO DE ABREU PUGNALONI é superintendente técnico da ENERCONS - Consultoria em Energia





