O pior cego
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quarta-feira, 12 de setembro de 2001
Samuel Chaym Blitsky 
Após ficar mais de doze horas na frente da TV e assistir ao pronunciamento do presidente George W. Bush cheguei, uma vez mais, à conclusão de que o povo americano não faz a mínima idéia do que realmente está acontecendo desde o primeiro atentado contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, na manhã desse inesquecível dia 11 de setembro.
Não quero, de forma alguma, afirmar que toda essa irreparável desgraça de hoje tem qualquer justificativa. Assassinato algum é justificável. No entanto, vendo Mr. Bush falar com ''seu povo'' tive a nítida impressão e esta opinião é compartilhada por vários amigos em várias partes do mundo civilizado que a imagem que se tenta passar é a de que atentados terroristas são coisas de gente má, que apenas quer destruir os Estados Unidos, ''o facho mais brilhante da liberdade no mundo'', nas palavras de Mister President.
Em nenhum momento as redes de televisão e notícias dizem que a atual situação da Palestina, do Iraque e até do Afeganistão de Osama Bin Laden ou do governo Talibã são, em parte, resultados frontais genuínos e conscientes da política externa norte-americana. Não mostram nem comentam a influência direta e indireta que seu país tem sobre esses pontos caóticos do planeta e, o mais importante, não dizem quais os ''motivos'' contidos nas intenções de líderes como Bin Laden e seus comparsas. Tudo o que se diz é que ele considera ''qualquer americano um alvo válido''.
Na cabeça do povo americano médio, o que existe lá fora são supervilões maus feios e bobos que só querem destruir os bonzinhos e justos e passam o dia reclinados sobre almofadas engendrando planos para abalar a democracia americana.
É difícil para essa gente eu quase os entendo acreditar que um país com um padrão de vida tão alto quanto é o seu, hoje, possa patrocinar algumas desgraças no mundo. É quase impossível para eles tomarem consciência de que, para existir sua ''prosperidade de cada dia'', é necessário que alguém passe fome em outro lado do mundo, uma equação matemática muito simples.
Da mesma maneira, o povo médio brasileiro não consegue enxergar que sua política externa e industrial causam, de forma imediata, coisas horrorosas como a crise na Argentina e que, no quadro seguinte, nós mesmos é que somos assombrados e aterrorizados pela ''pátria amada, mãe gentil''. Que mãe, heim?!
Poucos são capazes de entender que os palestinos e iraquianos ''comemorando'' nas ruas só querem dizer: ''Americanos, agora vocês estão sentindo o que a gente sente todo dia.'' A verdade é que o dinheiro americano é que financia Israel e outros Estados opressores em volta do mundo, assim como financiou a ditadura brasileira e mostrou-nos que eles podem semear horror onde bem entendem. Isso é a Pax Americana. Para eles, isso é a ''ordem mundial'', nova ou velha.
Para o povo americano, Osama Bin Laden é apenas um Lex Luthor mau e inescrupuloso, querendo matar o Super-Homem 100% puro, bom e digno de todas as graças divinas.
Mas será que toda essa ignorância pode embasar a matança de dezenas de milhares de pessoas que, como bem já disseram por aí, tiveram como único crime chegar pontualmente a seus empregos? A resposta única é não, claro que não. Maldito terrorismo, em qualquer dia, em qualquer hora e lugar. Mas é preciso mostrar que a tal guerra que se iniciou está muito longe de acabar, pois, um dos lados nem mesmo sabe por que ela está acontecendo.
- SAMUEL CHAYM BLITSKY, professor universitário em Curitiba, é cidadão israelense, serviu ao Exército de Israel de 1975 a 1978 e viveu em Nova York de 1980 a 1995


