O petismo e o lulismo
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sexta-feira, 08 de novembro de 2002
Gaudêncio Torquato 
A votação abaixo de sua média nacional, que Lula recebeu em 75% das cidades administradas pelo PT, comprova que, se ganhou um passaporte de confiança, o partido foi reprovado na tentativa de colocar a bandeira vermelha no pórtico dos governos estaduais. Essa clara visão diferenciada do eleitor sobre o presidente eleito e seu partido é uma indicação de que dois fenômenos abrirão o novo ciclo político: no curto prazo, o fortalecimento da identidade olimpiana de Lula e, no médio prazo, o divisionismo no PT, ambos com repercussão no espectro social e político.
O petismo abriga um escopo de idéias multifacetadas, algumas antagônicas. Acolhe desde a ultrapassada noção de que é preciso fazer a revolução, à ingênua idéia de que a erradicação da pobreza e a distribuição de renda constituem metas que se podem alcançar em pouco tempo. Há de se reconhecer que, ao lado de grupos que assim pensam, o petismo avançou nas veredas da pragmática política, adotando o preceito de São Francisco de Assis, de começar fazendo o que é necessário, para, depois, realizar o que for possível, e, de repente, chegar àquilo que parecia irrealizável.
Já o lulismo é algo transcendental, a partir da figura do próprio presidente eleito, que, agora na condição de pop-star, começa a habitar um Olimpo de admiração e crença. Parece ter assumido uma identidade dual, que se reparte entre a imagem divina da onipotência e a feição humana de um guerreiro. Os brasileiros optaram pelo lulismo em função de uma profunda fé que costumaram dedicar a um homem do povo, tenaz e afeito às intempéries. O lulismo paira sobre partidos e ideologias. Se tem cores, são as da bandeira nacional; se tem cheiro, é o das ruas; se tem símbolo, é o de tábua da salvação.
Um perigo, porém, ronda o guerreiro Lula: a monumental esperança que seu perfil desperta. São tão intensos os anseios, tão forte a torcida para que dê certo, que algum passo errado, qualquer decisão adiada, sentimentos frustrados acabarão gerando uma reversão de expectativas. E uma infelicidade como essa terá o efeito de uma bomba atômica sobre a auto-estima de um povo que se embala no manto da esperança. O presidente eleito precisa conter os acenos populistas que, se para ele, são uma forma catártica de fruir o prazer da vitória, para o povo é compromisso que será cobrado com juros e correção monetária.
Lembre-se ao presidente Lula que, estimulados pela voz saída da garganta de seus povos e dos gemidos de suas pátrias, grandes guerreiros da Humanidade acabaram arrastando seus exércitos para as páginas da História e as sombras da morte. Como foi comparado na campanha a Lincoln, um lenhador que se formou em Direito, alguém precisa lhe dizer que o 16º presidente dos EUA, de origem modesta e educação rústica, não era um simples sonhador. Sabia que a luta pela liberdade humana era eterna e que ela não chegaria ao fim em sua época. É de Lincoln a lição: ''Não fortalecerás os fracos, enfraquecendo os fortes; não ajudarás os pobres, eliminando os ricos; não ajudarás o assalariado, arruinando aquele que paga''.
É preciso ter muito cuidado quando se promete muito. Uma coisa é erguer a bandeira dos oprimidos e necessitados. Outra, é abrir para eles os portões do paraíso. De sua excelência, já se pode enaltecer a grandeza da alma, quando acena com a possibilidade de todos os brasileiros, sem exceção, terem direito ao café da manhã, ao almoço e ao jantar. O que não se pode esquecer é o tamanho da conta para alimentar as 46 milhões de pessoas que vivem em estado de pobreza.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e consultor político


