O peso do Estado na economia - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de janeiro de 1998
Fernando José Dias da Silva 
O assunto é o desemprego e o que fazer para acabar com ele. A discussão não é novidade, principalmente na Europa. Agora chega aqui com a força da ameaça das montadoras de automóveis demitirem milhares de empregados. É preciso flexibilizar o emprego? É preciso reduzir a jornada de trabalho para dar oportunidade de colocação a mais trabalhadores? Essa redução da jornada de trabalho implica ou não em diminuição de salários?
Ninguém encontrou o novo modelo de mão-de-obra, ainda, mas a maioria dos analistas europeus acha que as principais causas do desemprego numa sociedade que tende para a globalização são: o peso do Estado na economia e a rigidez das regras do mercado de trabalho.
Em levantamento comandado por Lucas Delattre, do jornal Le Monde, são apontados alguns poucos países que tomaram medidas e conseguiram diminuir o desemprego. Os Países Baixos, o Reino Unido e a Irlanda conseguiram aumentar o emprego sem provocar inflação e crescimento de déficits públicos. A estratégia dos Países Baixos e da Irlanda, por exemplo, foi reduzir o nível e a duração do auxílio desemprego. No Reino Unido, como na Alemanha, foram tomadas medidas para diminuir a idade necessária para o trabalhador se aposentar.
Na Europa Central, pelo menos por enquanto, não se pensa na baixa real dos salários. Segundo o professor Christian de Boissieu, do Departamento de Economia da Universidade Paris-I, esse aspecto do debate não tem razão de ser, pois nós não queremos adotar o modelo anglo-saxão. Trata-se, segundo o professor, de limitar a alta dos salários e o nível de descontos fiscais e sociais sobre os salários, principalmente os mais baixos. A questão é reduzir a diferença do salário bruto e do salário líquido. Também está sendo discutida a questão do salário mínimo. Acaba-se com ele, criam-se vários níveis, o que se pode fazer? Nos Países Baixos o salário mínimo foi reduzido, o que não serve de exemplo para nós porque não há o que reduzir no nosso salário.
Além da flexibilização dos salários está sendo discutido também a jornada de trabalho na Europa, de acordo com o Le Monde. A maioria dos especialistas é contra uma redução uniforme do tempo de trabalho porque ela pode salvaguardar a mão-de-obra já existente, mas não abre vagas para novos empregos. Segundo esses especialistas, ouvidos pelo jornal francês, o ideal seria a criação de empregos garantida pelo aumento ao máximo dos horários de trabalho (não a jornada do trabalhador). Os britânicos falam numa sociedade non stop funcionamento 24 horas.
Outro detalhe é o custo do empregado. As regras legais para admissão de
mão-de-obra. Na França muitas medidas já foram tomadas para suprimir e desregulamentar determinados pontos da lei trabalhista.
O interessante é que o levantamento feito pelo Monde teve como base a opinião de economistas liberais. Aqui nós teríamos muito que aprender com eles, apesar das diferenças serem abissais entre essas diversas economias e talvez a principal delas seja que o salário no Brasil nunca tenha sido o item principal nos custos da produção. Os empresários não gostam de falar nisso, mas toda a vez que aparece a sugestão de que as empresas apresentem as suas planilhas de custo, principalmente com os gastos referentes aos salários, a idéia é deixada de lado.
Os lucros no Brasil também sempre foram mirabolantes. Por isso o governo precisa tomar cuidado para avaliar se o desemprego é de fato um problema estrutural ou se tem gente aproveitando a onda para limpar o terreno.


