Vi, em todo canto, o início da aventura estadunidense sob a batuta extrema direita do presidente recentemente empossado. Dentre outros temas alusivos que já esgrimi, gostaria de destacar (aqui e agora) a questão das deportações e seu custo para nosso modo de vida.

Eu sei, você sabe e eles (tanto quanto) não desconhecem a soberania dos países em defesa de suas prerrogativas socioeconômicas. No caso dos pilgrins esse tema foi bandeira de campanha do candidato vencedor (bem provável a mais enfática). Assim, a expatriação dos imigrantes irregulares não é senão consectário de suas interações – direito de gestão.

Noves fora o momento estranho em que vivemos, pontuo um aprumo universal que remete a noite dos tempos, onde o homem contratou o convívio em sociedade: o mundo jamais será palco de direitos unilaterais, naquilo que vida e história imbricam a pacificação que direitos não se excluem – antes se completam...

Assim, se ao país é possível expulsar o imigrante irregular, este não pode, no processo de expatriação, ser objeto do ódio pilgrin e tratado feito criminoso (suposto que sua condição na terra da maçã não convola ato lícito), naquilo que o princípio da legalidade está em plena vigência – lá e cá.

Ademais, não se criam párias sociais em ordem a submetê-los a uma série de medidas coercitivas dissociadas de justa medida e racionalidade, naquilo que o expurgo de pessoas, forjado no ódio do gestor, não respeita condição anterior à expatriação, suposto que a humanidade alcança valor fundante maior e mais sensível que a autonomia gestacional de qualquer país – transitória e submissível ao escrutínio democrático de tempo em tempo.

É por isso que a expulsão de imigrantes irregulares, praticada com uma nota de crueldade, não é senão ferramenta fascista do exercício de poder pilgrin, conforme prometido em campanha pelo candidato vencedor.

Aqui é um bom momento para lembrar que os estadunidenses, um dia e sob um outro modelo gestacional, se orgulharam de ser a terra da liberdade – e dos valentes de verdade.

Então e assim, aquelas algemas de mãos e pés que adornaram os expatriados em seus voos de regresso aos países de origem, não estariam dentro do cercado do trato democrático que as convenções assinalaram outrora, naquilo que a soberania estadunidense não reduz a pó a condição de dignidade humana que alberga o expatriado.

Essa medida deságua na praia que quero desenhar por aqui, suposto que a radicalização do discurso fascista, traduzida nas imagens que negam a humanidade aos expatriados, vem pontuada de elogios e afagos ao mandatário que, de sua parte, surfa ondas de ódio sobre o tédio do livre mercado.

Triste constatação mundana onde a advertência secular de Hanna Arendt parece encontrar o devido destinatário na face cruel com que os pilgrins estão se caracterizando em seu nada ‘admirável mundo novo’, suposto que a perda da humanidade conduz, inexorável, ao declínio dos impérios.

A história está a demonstrar o peso de nossas escolhas no enfrentamento das tragédias que a humanidade, por seus múltiplos modelos totalitários, espraiou pela vida.

Então e assim, nem um século após lutar contra a entente nazifascista, os estadunidenses (outrora bravos e livres) abraçam um modelo contra o qual morreram em combate, ‘fascistizando’ suas potestades e, à bolsonaro, cuspindo na própria história.

O que mudou? O implemento de jovens rotas comerciais ou a edição de uma nova onda do imperador?

Não sei, mas penso que o cansaço e a desilusão de homens velhos que acumularam extraordinária quantia de dinheiro (e de colesterol) não é motivo bastante para pear a história e a consciência de um povo.

No ponto, lembro que o fantasma da liberdade sobrevive no pó da estrada que a história pavimentou e que nós outros, americanos (do Sul e do Caribe – Latinos!), seguimos herdeiros de Aureliano Buendia e de Simon Bolivar – e isso é infinitamente maior que qualquer herança biliardária que faça rolar os dados do destino pilgrin.

Assim, não será rotulando falsamente imigrantes irregulares em ilegais que os estadunidenses justificarão a sua desafortunada comédia existencial, pulverizada no escrutínio pró mercado de sempre, suposto que há mais poesia na conformação dos Coronéis de verdade (Buendia presente!) que na construção das grandes fortunas.

Entremeio a literatura e a existência, entre Buendia e Bolivar, é justamente por este não bastar que aquele se faz imprescindível, sem que Simon deixe de ser extraordinário, a ponto de metaforizar Aureliano.

Nós outros, latinos, seguimos herdeiros da metáfora e filhos da história, ao tempo em que os do norte não são senão aqueles que algemam pequenos irregulares, ao tempo em que passam pano e se curvam a quem lhes vende a ilusão dos tolos...

Tristes trópicos, onde a história cede ao interesse ocasional do grande capital, em que pese o custo dessa covardia.

Saudade Pai.

João dos Santos Gomes Filho

Advogado

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