Uma notícia importante do mês de março teve repercussão menor do que deveria. No dia 25, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu, com 123 votos favoráveis - incluindo o do Brasil – e apenas três contrários – incluindo o dos Estados Unidos - o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como o mais grave crime contra a humanidade. Uma votação simbólica, mas, para além disso, histórica.

“Ah, mas não muda nada na vida das pessoas negras”. De fato, as mudanças urgentes não virão desta votação, mas ela tem grande relevância por pautar um tema urgente para a memória brasileira. E para a atualidade também. Essa votação estará nos livros de história, evidenciando para as crianças a gravidade da escravização de africanos, para além de narrá-la.

Poucos dias depois dessa votação a Folha de S.Paulo publicou a matéria “Escravidão explica PIB per capita persistentemente baixo na história do Brasil, aponta estudo”, na qual elenca os estragos econômicos proporcionados pela escravização a partir de pesquisa dos historiadores econômicos Guilherme Lambais, da Universidade Lusíada de Lisboa, e Nuno Palma, da Universidade de Manchester. Em resumo, a pesquisa mostra que a escravização empobreceu o país pela própria existência. Ou seja, o fato de empregar uma mão-de-obra de subsistência levava à desvalorização de todo o trabalho braçal, mesmo de pessoas livres. Por consequência, diante da abundância de escravizados, os “senhores” não viam necessidade de investir em processos mais modernos e produtivos.

Para quem só se assusta quando o impacto econômico aparece, veja só: a precarização atual do trabalho é descendente direta da opção econômica pela exploração. Quem diria!

A escravidão foi abolida formalmente há apenas 138 anos no Brasil. Digo formalmente porque os movimentos negros têm falado, de forma recorrente nos últimos anos, na falsa abolição. Negros foram libertos do trabalho escravo sem qualquer compensação. Quem recebeu dinheiro do Estado ao final foram os donos de escravos. Isso mesmo. Receberam por estarem perdendo seus “bens” (a coisificação do outro, retirando dele a dignidade humana, está no cerne dessa questão, mas será tema de outro texto).

O histórico insistente da escravização no Brasil precisa ser passado para as crianças em idade escolar com o espanto necessário, para que elas entendam seu real impacto na vida ainda hoje. Para que entendam as posições sociais pré-estabelecidas, seus privilégios ou seus obstáculos natos; para que entendam a necessidade de cobrar formas de reparação para uma verdadeira reconstrução social.

É urgente que o Brasil passe a tirar de debaixo do tapete suas mazelas para que não voltem a acontecer e para que possamos recomeçar com políticas de reparação reais. Que se reconheça o genocídio dos povos indígenas; que paremos de falar em descobrimento de uma terra já habitada; que resgatemos a história dos africanos sequestrados e explorados nessas terras; que isso não esteja apenas nos livros de história, mas em espaços públicos, museus, para que seja compreendido como o grande crime que de fato foi.

Sabe aquele conselho comumente direcionado a casais, de não dormir brigado, de resolver os problemas antes de deitar? O Brasil vem dormindo sobre seu passado tortuoso há séculos, sem descansar de fato, engolindo mais do que seria saudável. É preciso falar e buscar soluções para seguir em frente sem vendas nos olhos – o que, neste caso, significa reconhecer os crimes cometidos contra os povos originários e os africanos escravizados, implementar políticas de reparação para seus descendentes e, só então, se redefinir como Nação.

*Cecília França é jornalista em Londrina. Tem especialização em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.

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