Uma imagem: antes do jogo, o homem pedala apressadamente a bicicleta por uma das ruas da área central da cidade. Veste uma camisa verde-amarela, com a inscrição ‘‘Eu tô maluco!’’ Com a mão direita, firma ao guidão as alças de uma sacola desbotada. As cores do País tremulam na bandeirinha espetada na garupa da bicicleta. Não é difícil deduzir que se trata de um operário. Deve ter tido trabalho-extra no domingo. Agora vai para a casa, certamente na periferia. Na sacolinha talvez leve uma marmita vazia. No coração, a mesma ansiedade de todos nós. Pára no semáforo. Um camelô brinca com ele, comenta alguma coisa sobre o jogo. ‘‘Brasil 3 a 0, dois gols do Ronaldinho’’, diz o homem na bicicleta, com um sorriso infantil.
Ronaldinho, 21 anos, é o nome da esperança nacional. O porta-estandarte da alegria. O exterminador das frustrações do nosso cotidiano.
Naquele mesmo instante, na concentração da equipe brasileira na França, o maior ídolo do futebol mundial, Ronaldinho sofre convulsões, deixa apavorado seu companheiro de quarto, Roberto Carlos, que chega a pensar que o atacante está morrendo. Crise nervosa? Envenamento? Forças ocultas?
Os acontecimentos que se seguiram, a esta altura todos os torcedores já devem estar sabendo: Ronaldinho foi levado para fazer exames médicos, o ambiente na concentração ficou tenso, Edmundo foi escalado para disputar a final com a França, mas acabou tendo seu nome substituído na lista, quando o titular apareceu no vestiário e disse que queria jogar.
O Brasil jogou (ou melhor, não jogou) contra o organizado time francês e perdeu. Para a maioria dos torcedores brasileiros, a vitória dos franceses foi quase por WO (não comparecimento do adversário). Derrota faz parte do jogo. Não é a primeira vez que o Brasil perde em uma final de Copa e obviamente não será a última. Mas, nas análises dos especialistas, após o jogo de domingo, havia um ingrediente a mais, além das tradicionais questões que rendem polêmica a respeito de uma partida de futebol: o ‘‘trauma’’ da equipe brasileira com o episódio Ronaldinho.
O técnico Zagallo fez questão de falar sobre o assunto em ‘‘conferência à imprensa’’ após a derrota, mas se irritou com a pergunta óbvia de um jornalista: se o jogador não estava bem por que foi escalado? Zagallo, tenso, não conseguiu dar a explicação igualmente óbvia: se o médico garantiu que não havia nada de anormal com o craque e se o próprio Ronaldo pediu para jogar, nenhum treinador teria coragem de deixar fora da final ‘‘o melhor jogador do mundo’’.
O que ficou no ar na noite de domingo e na madrugada de segunda-feira: Zagallo, boa parte dos jogadores e provavelmente até o operário da bicicleta - que esperava festejar o penta e vibrar com os gols do ídolo - responsabilizavam de alguma forma Ronaldinho pelo resultado do jogo. Mas as perguntas que se seguiriam não teriam respostas óbvias. Por exemplo: se Ronaldo estava visivelmente mal em campo, por que não foi substituído pelo treinador? Só Zagallo sabe.
Provavelmente ele confiou na sua velha sorte. Mas para se vencer um Mundial de Futebol é preciso mais que sorte. Talento, esquema tático e personalidade são fundamentais. Garra é imprescindível. Em 1962, o Brasil ficou sem ‘‘o melhor jogador do mundo’’, Pelé, no início da Copa. Amarildo entrou e deu conta do recado. Garrincha, então, jogou até mais do que se esperava.
Se Ronaldinho não tivesse sofrido convulsões, será que Roberto Carlos teria tocado aquela bola para a lateral e não para escanteio? Os zagueiros teriam evitado as cabeçadas certeiras de Zidane? Leonardo teria sido brilhante? Rivaldo, Bebeto ou até mesmo César Sampaio fariam os gols necessários para a vitória? E aquele amontoado de jogadores de camisas amarelas que se viu durante toda a Copa, jogaria, enfim, por música? Só Deus sabe. E antes que haja alguma confusão, é bom esclarecer que Zagallo e Deus não são a mesma pessoa.
O que realmente ocorreu na final da Copa da França: o time todo (excetuando-se Taffarel e o sempre esforçado Cafu) foi vítima de estranha apatia. Ninguém jogou nada. Nem precisava. Afinal, nossos jogadores já tinham uma boa desculpa para a derrota antes mesmo de chegarem ao estádio.
- NELSON CAPUCHO é editor-adjunto da Folha

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