O pescoço e a guilhotina
O contencioso diplomático mais delicado, neste momento, entre Brasil e Estados Unidos - e que motiva a visita próxima de Bill Clinton - refere-se à criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Os EUA conceberam a Alca para esvaziar o Mercosul. Não lhes interessa que o sul do continente defenda seus próprios interesses. A globalização, nesta etapa inicial, tem sido imensamente vantajosa para o comércio externo norte-americano.
Jamais os EUA venderam tanto aos países em desenvolvimento quanto nos últimos cinco anos. O chamado Terceiro Mundo - e, dentro dele, com destaque, o Brasil - absorve hoje 42% de todas as exportações norte-americanas. De 1990 até 1995, elas cresceram nada menos que 75%, duas vezes mais que as vendas para os países industrializados. Quem quer acabar com uma mamata dessas?
Pois bem: o Mercosul ameaça essa performance. Transforma o sul do continente de reserva de mercado norte-americana em bloco econômico independente, capaz de escolher o parceiro mais adequado. Um efeito geopolítico claro dessa independência, que apenas se esboça, é a recente visita do presidente francês Jacques Chirac, cortejando o Brasil e oferecendo vantagens comerciais na parceria com a União Européia.
Há cerca de um mês, o secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, disse que seu país pretende usar cada vez mais o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird) para convencer os países em desenvolvimento de que a melhor saída para o crescimento é adotar políticas de livre comércio, abrindo suas economias. Sob o rótulo de livre comércio, esconde-se o clássico acordo do pescoço com a guilhotina. O pescoço, claro, somos nós.
Os EUA esforçam-se para fazer crer a seus parceiros sul-americanos que a Alca terá papel equivalente ao da União Européia, unindo economicamente as Américas. Há, porém, diferenças fundamentais. Os habitantes dos países da União Européia dispõem de passaporte único, que lhes permite transitar livremente pelo continente e buscar oportunidades de emprego onde se apresentem, sem restrições. Isso estabelece um padrão de isonomia fundamental para que haja unidade.
O que os EUA propõem é que os países sul-americanos abram suas alfândegas a eles, enquanto eles próprios fazem exatamente o contrário: erguem em suas fronteiras um vasto Muro de Berlim, que começa dentro dos próprios países-parceiros. Basta ver o tratamento desrespeitoso dispensado nos consulados americanos no Brasil para os que querem ir aos EUA, ainda que para fazer turismo e transferir divisas.
Os brasileiros são hoje o segundo núcleo turístico de consumo nos EUA. Perdem apenas para o Japão, o que não os impede de serem maltratados. A Alca dá dimensões geoeconômicas a esse processo.





