O Peru resiste ao establishment
Luiz Afonso Santos
No domingo à noite, ao ligar a TV a cabo e passar por vários canais com o controle remoto, pensei que Toledo era o novo presidente peruano, depois me dei conta de que tanto a GloboNews como a CNN estavam entrevistando, não o vencedor, mas o derrotado, o candidato da globalização. O processo eleitoral peruano, apresentado simplistamente pela mídia do establishment como uma mera fraude, foi muito mais um desafio para qualquer analista que pretenda ter um mínimo de objetividade e de visão crítica da história recente da política latino-americana.
Se alguém disser que não houve um descarado arranjo de Fujimori para conseguir sua segunda reeleição estaremos diante de um fujimorista fanático, mas, se por outro lado verificarmos o currículo de quem se empenhou, através de todo o tipo de pressão, para impor Alejandro Toledo ao Peru, não poderíamos ter deixado de torcer, ardorosamente, pela vitória de Fujimori.
Até 1992, antes das medidas de força, o Peru estava simplesmente desaparecendo como nação sob as bombas e massacres do Sendero Luminoso, dominado pelo narcotráfico e pelo terror sobre o Judiciário, cujos membros não podiam condenar os narcotraficantes por medo da morte certa, sem que os mesmos que hoje se mobilizam por Toledo tivessem movido uma palha para enfrentar a situação que naquele momento era vista como irreversível, exatamente como ocorre hoje na Colômbia, que morre lentamente, enquanto a mesma ‘‘comunidade internacional’’ que se diz preocupada com a democracia peruana permanece de braços cruzados esperando pelo butim.
A ‘‘democrática’’ comunidade internacional também não questiona a ditadura que vai sendo implantada por Chávez na Venezuela, como não se importou com as alterações na legislação brasileira que deram origem à reeleição de Fernando Henrique Cardoso, e não se importariam, muito pelo contrário, se no Brasil as regras do jogo novamente fossem mudadas para assegurar um terceiro mandato, como o de Fujimori, a FHC, e que durante o processo eleitoral a mídia fosse maciçamente governista, tal como ocorreu no Peru.
O mesmo Clinton que ameaça o Peru com sanções políticas e econômicas, ‘‘em defesa da democracia’’, acaba de ampliar as relações comerciais com a feroz ditadura chinesa de 1 bilhão de consumidores, enquanto a ‘‘moderna’’ União Européia recebe oficialmente uma delegação da guerrilha narcoterrorista das FARC, que implantaram uma ditadura fascista nos territórios conquistados no sul da Colômbia, ‘‘legalizando’’ a extorsão a fazendeiros e comerciantes e o assassinato de indesejáveis através de tribunais revolucionários de exceção, ao mesmo tempo em que seus ‘‘comandantes’’ dão entrevistas defendendo a legalização da cocaína, seu principal produto e o pior flagelo da juventude no mundo atual.
É também extensa a relação de OGNs globalistas, como a Transparência, o Projeto Democracia, o Diálogo Interamericano, e a de nomes de autoridades dos países hegemônicos que se dedicaram nos últimos meses à tarefa, felizmente fracassada, de impor seu candidato ao Peru.
Se há inúmeros exemplos de que a ‘‘comunidade internacional’’ não está tão preocupada com a democracia quanto parece, convivendo com ditaduras e regimes autocráticos pelo mundo a fora, por que tanta obsessão anti-Fujimori? Seria ele tão ruim assim para o Peru? Se seu governo fosse tão ruim, depois de dez anos no poder não haveria fraude capaz de reelegê-lo (com a metade deste tempo, FHC já não pode mais sair às ruas sem a certeza de encontrar uma manifestação contrária pela frente), e mesmo com todo o desgaste deste longo período no poder o ‘‘Chino’’ consegue um expressivo apoio popular.
Enquanto dentro de casa os EUA travam uma feroz e vitoriosa luta contra o crime, aqui na América Latina as ONGs pregam o oposto, a rendição e a ‘‘negociação’’ com o criminosos em geral, sendo Fujimori um perigoso contraponto à política de capitulação que se está implantando no subcontinente por desprezar os capitulacionistas e dar o exemplo aos povos afligidos pelo crime, não com discursos vazios de boas intenções, mas com ação efetiva, de que é possível liquidar o narcoterrorismo e conter o crime sem negociação e concessões. Sua independência, ao dizer que quem manda no Peru são os peruanos, é inaceitável para os donos do mundo.
O que está em jogo para os ‘‘defensores da democracia’’ não são os interesses do povo peruano nem a democracia, Toledo é um novato na política, tendo como grande trunfo suas conexões internacionais com o capital usurário, a real preocupação da oligarquia financeira era usá-lo para ir implantando seu modelo de ‘‘soberania relativa’’, de total submissão ao FMI e de rendição ao crime e ao narcotráfico a pretexto da defesa dos direitos humanos, políticas com as quais se vão minando as bases da sociedade e da soberania dos países nos quais a globalização cravou suas garras.
A experiência peruana nos ensina três lições importantes: a primeira é a de que com determinação, tal como fez o Peru, é possível derrotarmos as sinistras forças políticas da globalização; a segunda é que os setores oposicionistas brasileiros precisam se decidir, ou defendem de fato o Brasil como Estado nacional soberano e denunciam tanto o FMI e a política econômica da globalização como também suas ONGs, entre as quais a Anistia Internacional e o Diálogo Interamericano (ONG intervencionista do capital usurário norte-americano, da qual, segundo levantado pelo brilhante jornalista brasileiro Carlos Chagas, FHC é membro), ou ficam, objetivamente contra o Estado nacional e fazem a política da ‘‘soberania relativa’’ da globalização, numa posição contraditória e antinacional apesar do discurso demagógico em contrário; e a terceira, e talvez a mais importante, é o que espera o povo brasileiro se abandonar a capitulação às forças globalistas e resolver seguir seu próprio caminho nacional. Aqui há muito mais em jogo do que no Peru.
Vejamos agora qual será a reação do establishment à ‘‘afronta’’ dos nacionalistas peruanos a seus desígnios. Isso não vai ficar barato.
- LUIZ AFONSO SANTOS é presidente da Associação Paulista de Defesa dos Direitos e das Liberdades Individuais (APADDI)
www.apaddi.org.br
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