O perigo mora em casa
Chapeuzinho Vermelho, a versão clássica da literatura, não a nova leitura em cartaz nos cinemas brasileiros, aborda nas entrelinhas o perigo escondido no mundo exterior e que ameaça a personagem principal, que ignora as orientações da mãe. A inocência da menina estava ameaçada por um ser estranho à sua família. Só que no mundo real, muitas crianças estão diante de algozes que antes deveriam protegê-las: seus próprios pais.
Pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas (HC), instituição ligada à Universidade de São Paulo (USP), mostra o tamanho do problema. Em quase 90% dos registros de abuso sexual cometidos contra crianças, o agressor fazia parte do círculo de convivência da vítima, sendo que em cerca de 40% dos casos o pai foi o autor da violência, seguido por padrasto (15%) e tio (6%). Vizinhos sem nenhum tipo de ligação familiar apareceram em 9% dos casos.
A análise foi feita a partir de 205 casos registrados entre os anos de 2005 e 2009, mas não é difícil concluir que o número de meninos e meninas sujeitos a esse tipo de violência é ainda maior. Por medo ou até mesmo por descaso, os pequenos ficam condenados a conviver debaixo do mesmo teto de seus agressores. Sem falar no dano psicológico, imensurável e vitalício.
A impunidade coloca tom ainda mais perverso nessa realidade. Diante da falta de denúncias, criminosos ficam livres para continuar a cometer suas barbáries, sem receio de fazer novas vítimas.
Quando a família não dá a proteção necessária aos indefesos, o Estado precisa assumir esse papel. E os governos falham na proteção dessas crianças. Conselhos tutelares funcionam com verbas insuficientes, sendo que não é incomum encontrar municípios onde esses órgãos simplesmente não existem.
Nesta semana a União afirmou que vai financiar a melhoria física nos conselhos tutelares e ajudar a qualificar seus integrantes. Uma promessa que precisa sair do papel para garantir o futuro digno a milhares de crianças.





