O perigo da inversão de valores
Para começar nossa conversa, é preciso que tenhamos uma definição de valor que norteará este texto, senão correremos o risco de sermos prolixos e pouco efetivos. No site "significados" encontrei a seguinte definição: "Valores são o conjunto de características de uma determinada pessoa ou organização que determina a forma como a pessoa ou organização se comporta e interage com outros indivíduos e com o meio ambiente. A palavra valor pode significar merecimento, talento, reputação, coragem e valentia".
Justificando este escrito, tenho me preocupado demais com a contínua inversão dos valores sociais e humanos. Moro na Zona Norte de Londrina e me deparo com situações que me chamam muito a atenção. Certa vez fiz o seguinte comentário na missa: "Qual o valor da vida humana para mim, para nós, para nossa sociedade? Percebo que vale cada dia menos, a ponto de imaginar e agir como se o que eu tenho de material tenha muito mais valor do que a vida humana. Isso me dá o direito de colocar sobre a calçada meu carro e deixar que uma mulher tenha que andar na rua empurrando o carrinho de seu filho ainda pequeno. Meu carro será preservado de alguém imprudente que viria a bater nele, caso estivesse na rua, mas deixando sobre a calçada ele estará mais seguro. Quanto à vida daquelas duas pessoas, a mãe e a criança, não estou nem aí. Não é só uma questão do Código Brasileiro de Trânsito, que afirma que estacionar sobre a calçada é errado e passível de multa. É uma questão de bom senso, pois é falta dele, do bom senso, obrigar uma pessoa a andar na rua, que deveria ser lugar dos carros, quando na calçada, que deveria ser lugar do pedestre, tem um carro estacionado, por medo de que alguém venha e bata nele".
Fui criticado por algumas pessoas, que acham que isso não deveria ter sido falado durante a missa. Engraçado, pois estas mesmas pessoas que me criticaram costumam colocar seus carros sobre as calçadas. Mas esta é a ponta do iceberg.
Quando a inversão de valores atinge os mais altos escalões da política nacional, ficamos a nos perguntar: o que mais falta acontecer? Diante do cenário político tosco, de negociações e conchavos, de venda e de compra de pessoas e de votos, ficamos perguntando: onde está o bom senso? Onde estão os verdadeiros valores? E não me venha dizer que "faz parte do jogo político". Pode até fazer parte do jogo, mas é ético?
Quando é que vamos parar de pensar somente em nossas necessidades e começar a pensar como seres humanos que vivem em sociedade? Essa exacerbação da individualidade está gerando essa crise de valores, onde cada um cria seus códigos de valor, mas nos esquecemos dos valores coletivos.
Voltemos à definição do início deste texto. "Valores são o conjunto de características de uma determinada pessoa ou organização, que determina a forma como a pessoa ou organização se comporta e interage com outros indivíduos e com o meio ambiente".
Vivemos em sociedade, vivemos no coletivo. Temos normas e princípios socialmente aceitos e configurados também em sociedade. Não respeitar os códigos de vivência social coloca a pessoa num patamar de usurpador do direito que é coletivo, fazendo seu o que é de todos, pensando e agindo como se ele fosse o único na sociedade, e não é.
Sou padre, não sou psicólogo. Mas vivo em sociedade e como membro ativo da sociedade, busco o valor do coletivo para que as individualidades sejam respeitadas em seus direitos.
ALEXANDRE ALVES DOS ANJOS FILHO é padre da Paróquia Santa Cruz, no Conjunto Luis de Sá, em Londrina
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