O perfeito idiota
‘‘O Peru tem dois tipos de problemas: os que não se solucionam nunca e os que se solucionam sozinhos’’. (Manuel Prado, ex-presidente do Peru)
José Roberto Whitaker Penteado
O fato de não escrever oficialmente sobre livros descompromete-me de produzir um artigo às pressas quando sai alguma coisa nova e importante - como este ‘‘Manual do Perfeito Idiota Latino-americano’’ que saiu faz algumas semanas e estive saboreando nos feriados.
O livro é de autoria de três intelectuais sul-americanos, um colombiano, um cubano e um peruano, o que lhe assegura uma certa representatividade mas resulta em que o Brasil seja pouco citado no grande febeapá de que trata a obra - aliás, devia ser ‘‘febeacon’’, festival de besteira que assola o continente... Pena que o prefácio, como sempre brilhante, de Roberto Campos, deva afugentar o seu principal público-alvo: os perfeitos idiotas brasileiros. Este é, contudo, um problema que o marketing ainda não conseguiu resolver. Mesmo as pessoas mais necessitadas de um produto ou serviço só vão adquiri-lo de estiverem convencidas de que precisam dele...
Sempre exaltado, o texto peca sempre pelo excesso - perdoável porque, como o título indica claramente, se trata de um desabafo e não de uma tese acadêmica. Mas isso torna a leitura - mesmo para quem está a favor - às vezes cansativa.
Sobre o pano de fundo da comédia que atualmente se desenrola em relação ao leilão da Companhia Vale do Rio Doce, entretanto, é instrutivo repassar alguns itens do livro. Por exemplo, ao comentar criticamente uma observação de Frei Betto, de que a economia de mercado ‘‘depois de 100 anos de hegemonia’’ falhou na América Latina, os autores lembram que, na verdade, a economia de mercado jamais teve chance em nosso continente. Aqui sempre se praticou o mais deslavado mercantilismo patrimonialista - desde a colonização - em que uma classe política burocrática, sua clientela eleitoral e seus aliados - empresários superprotegidos e uma elite sindical ligada às empresas do Estado - administram o país como se fosse patrimônio seu.
Há uma perturbadora semelhança entre os países da A. Latina, onde o Estado detém o controle sobre as riquezas públicas e privadas através de um sistema repleto de privilégios e monopólios, que é inesgotável fonte de ineficiência e corrupção e causa flagrante de subdesenvolvimento, de discriminação e de injustiça. Que, nas palavras de Jean-François Revel, ‘‘caracteriza-se por negação do mercado e da liberdade de câmbio e preços; uma prática monetária irreal, desligada do contexto internacional; investimentos colossais, com complexos industriais megalômanos ou improdutivos; bancos cujo crédito não pode funcionar segundo critérios econômicos; protecionismo alfandegário que suprime a concorrência e degrada a qualidade dos produtos locais; uma pletora de empregados parasitas que torna quase impossível uma volta ao mercado sem provocar desemprego e o empobrecimento da população acompanhado do enriquecimento da classe política e burocrática por meio da corrupção’’.
Todos já vimos este filme antes e - o que é pior - acompanhado de sucessivas reprises. Mas o livro, afinal de contas, é dirigido ao perfeito idiota latino-americano, que, pelo proposto pelos autores, é alguém que ainda não se deu conta de que seu pensamento político está, hoje, na retaguarda dos tempos. Ele ainda acredita numa ‘‘esquerda’’ que obtém belas ressonâncias em setores importantes da nossa sociedade, como as universidades (públicas), a igreja e a imprensa, e que há 40 ou 50 anos era expressão de uma corrente reformista. Que vibrou de entusiasmo diante dos rapazes barbudos que conseguiram - em Cuba - a proeza de derrubar um ditador apoiado por seu exército e por Washington. Mas que, hoje, entrincheirada na ilusão de um Estado ainda dirigista e benfeitor, percebe que ninguém os acusa mais de subversivos - mas, sim, de dinossauros.
A parte mais instrutiva do ‘‘Manual’’ talvez seja a lista dos ‘‘dez livros que comoveram o idiota’’, tais como a ‘‘Revolução dentro da revolução’’ de Debray, ‘‘O homem unidimensional’’ de Marcuse, ‘‘Para uma teologia da libertação’’ de Gutiérrez, ‘‘As Veias abertas da A. Latina’’ de Galeano e - last but not least - ‘‘Dependência e desenvolvimento na América Latina’’ do nosso presidente FHC com E. Faletto. A obra é de 1969 e o presidente já pediu que nos esqueçamos do que escreveu há tanto tempo. O problema é que, como observou o inesgotável Roberto Campos, fica sempre o sotaque.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

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