O pecado da mentira
Mirian Guaraciaba
Faltam três anos para as eleições e estamos tratando de possíveis candidatos à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Na história recente do País, as campanhas nunca começaram com tanta antecedência. Disputas precoces costumam atrapalhar o governo em andamento, enfraquecer quem está no comando. Tiram um pouco do brilho e reduzem a margem de decisão de quem precisa negociar com políticos, empresários, trabalhadores, a sociedade.
Mas os fatos estão postos. E exatamente porque o governo não vai tão bem, e o presidente amarga índices baixíssimos de popularidade – recuperou apenas 3 pontos no nível de insatisfação popular, segundo a pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT)-Vox Populi, divulgada ontem – é que a campanha começou tão cedo.
Vamos então olhar o lado positivo da história. A distância no tempo pode não ser ruim. Serão muitas as oportunidades para que os eleitores analisem propostas, idéias, palavras, comportamento, comprometimentos. Em tese, o eleitor terá menos chance de errar o voto em 2002.
Os interessados estão se posicionando, falando, propondo. Ciro Gomes, ex-ministro, ex-governador, ex-prefeito, é o único candidato declarado. Visitou, este ano, 300 cidades, de norte a sul do Brasil. Tem batido nos mesmos pontos, apresentado programas de governo de forma consistente, fechada. ‘‘Estou conhecendo as pessoas e deixando que me conheçam’’, diz.
Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, ainda não admite a candidatura. Em 1998, foi assim até lançar-se na disputa com Fernando Henrique Cardoso. A gente conhece seu ponto de vista e o projeto do Partido dos Trabalhadores para o País, mas nunca é demais ouvi-lo. As pessoas se reciclam, embora no PT o processo seja mais complicado.
Se Lula, por acaso, ficar fora da disputa – o que é difícil – há nomes bem definidos no partido capazes de concorrer à presidência da República. O governador do DF Cristovam Buarque e Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre, são os mais evidentes.
De Cristovam, nós de Brasília sabemos bastante. Convivemos com acertos e erros de sua administração. Mas transferir a experiência de Brasília para o Brasil não é tarefa simples. Por isso, é bom que Cristovam fale, defenda seu ponto de vista. E ele tem feito isso.
Não como candidato declarado – nem o rigor partidário, nem a distância das eleições permitiriam isso – mas como político preocupado com os destinos do País, de suas crianças, trabalhadores, velhos e moços.
O governador Jaime Lerner, do Paraná, também trabalha com discrição. Quer ser candidato pelo PFL, mas sabe que há disputa pesada no partido. Lerner disse ao ‘‘Correio Braziliense’’ que se sente preparado para a função e gostaria, como Cristovam, de estender para o Brasil os programas bem-sucedidos no Paraná. Ele reafirmou sua intenção em declarações feitas a outros jornais. Antonio Carlos Magalhães (Bahia) e Anthony Garotinho (Rio) também deixam clara a pretensão de governar o País.
Certamente outros virão. E nós não devemos ser meros espectadores. Com tempo para conhecê-los, ninguém poderá dizer que votou enganado. A não ser que nossos políticos, na virada do milênio, insistam em cometer o maior de seus pecados: o da enganação.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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