O pecado da carne vermelha - Godofredo Costa
O pecado
da carne
vermelha
Godofredo Costa
Recordo-me da última Sexta-Feira da Paixão, quando navegava pelas sintonias do rádio do carro. Deparei com uma entrevista com o frade dominicano e escritor Frei Betto, conhecido militante de esquerda e autor de obras de sucesso como Fidel e a Religião, uma coletânea de entrevistas com o líder cubano.
Ao ser indagado sobre o pecado que representa o ato de se comer carne vermelha na Semana Santa, Betto surpreendeu-me com uma explicação que me fez ver, com o orgulho de leigo no assunto, quão lógica é a interpretação que dou ao sentido da existência das religiões no mundo.
Sem discorrer muito sobre o pecado em si, e reservando o entendimento de que ele existe, o frei esclareceu que não há qualquer restrição nos registros divinos para o ato da deglutição, propriamente dito, deste ou de qualquer outro alimento naquela ou em outra data.
Não existe sentido em as pessoas se absterem do consumo da carne vermelha mas se empanturrarem de bacalhau ou outras chamadas carnes brancas, num ritual hipócrita que, como tantos outros, não atende a outro senão ao interesse mercantilista que responde pela movimentação de milhões na economia.
Um dos pratos preferidos dos puritanos de plantão é a pobrezinha da lagosta, que é cozida viva; uma receita macabra acessível somente ao paladar dos menos excluídos da sociedade.
Pecado, segundo Frei Betto, é falar de abstinência da carne vermelha quando milhões de pessoas no Brasil e no mundo não têm acesso regular ao alimento, por limitação de sua própria situação econômica.
O frei explicou que muitos atos ainda hoje tidos como pecaminosos, do ponto de vista religioso, são frutos de meras recomendações da Igreja no passado, objetivando conter determinados abusos praticados pela sociedade.
Equiparam-se, por exemplo, ao mito de que a ingestão de leite com manga faria mal à saúde. Essa teoria, ainda hoje respeitada ou pelo menos temida pelos menos esclarecidos, foi disseminada na época da escravatura. Os senhorios alimentavam seus escravos com mangas, alimento barato e na época já abundante, garantindo-se contra subtrações que pudessem comprometer a produção de leite, operada pelos escravos nas fazendas do Brasil colonialista.
Teoria católica abertamente questionada pelos evangélicos, o mito do pecado que condena o consumo da carne vermelha também possuía os seus propósitos. Objetivava, como explicou Frei Betto, disciplinar o exagero no consumo desse alimento, que sempre mereceu destacada preferência entre tantos outros que compõem o vasto menu da alimentação humana.
Frei Betto concluiu seu raciocínio ao resgatar de Aristóteles, filósofo e cientista grego que viveu no século IV a.C. o princípio da trilogia sobre a qual se baseia o desenvolvimento humano. Razão, espírito e especialmente o sentido, onde se abrigam os ditos prazeres da vida, devem ser exercidos com equanimidade e ponderação, sob pena de comprometer a evolução harmônica do ser.
Num ensinamento neurolinguístico, o frei ofereceu uma receita bastante simples que torna possível transgredir o pecado da carne vermelha (entre outros) sem suscitar a fúria divina ou mesmo os efeitos psicológicos (culpa) gerados com o descompasso no exercício da trilogia de Aristóteles. Orienta que seja feita uma lista dos cinco principais prazeres que você goza diariamente, cuja saudabilidade seja discutível (leia-se vícios). Cigarro, bebida, sexo, jogo, comida e TV em excesso são alguns exemplos.
Embora pareçam sinônimos, comida não deve ser confundida com alimento, da mesma forma que um nutritivo prato de saladas não deve ser confundido com uma (mais calórica que nutritiva) taça de sorvete. Ao acordar, sorteie um dos prazeres que relacionou. Você deve passar o dia todo sem gozá-lo, não importa o que aconteça. Aos sábados e domingos, você está liberado do compromisso. Mas cuidado com os abusos! Se levar adiante essa disciplina, você estará dando um grande passo para o domínio dos seus sentidos e, desta forma, poderá viver melhor consigo mesmo.
- GODOFREDO COSTA é consultor de empresas e analista no setor de risco bancário em Brasília





