O 'Passat' e o brioche
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de março de 1999
Joel Samways Neto 
Semana passada, a história política do Paraná foi marcada por um episódio que teve tudo para ser emblemático. Não foi não sei por quê. Ou será que sei.
O fato foi a anunciada renovação da frota da Assembléia Legislativa. Essa Casa do Povo disse que pretendia adquirir 22 novos automóveis oficiais para os deputados estaduais. Vinte e dois automóveis de luxo. Nada menos que 22 Passat VR6, importados da Alemanha. Segundo a Folha, cada carro desse custa em média R$ 74 mil - variando, obviamente, segundo a cotação do dólar do dia. Daí, na ponta do lápis, esse negócio custaria cerca de R$ 1,6 milhão.
Claro que automóvel em bom estado de conservação é importante para o deputado estadual. Mais do que isso, é ferramenta de trabalho. O representante do povo precisa se locomover de um lado para outro, seja na Capital, seja em viagens ao Interior. E a missão da deputação é nobre. Afinal, o representante precisa dialogar com seus representados, precisa ir onde o povo está, precisa dar o ar de sua graça em celebrações populares e solenidades oficiais ou religiosas, precisa ver e ser visto. Logo, ninguém há de querer que o delegado do povo ande por aí com carro velho, novo-usado, carro que pode acabar deixando o passageiro na beira da estrada. De que ano são os automóveis que os deputados usam atualmente? 1970? Rodaram mais de 150 mil quilômetros? Saíram da garantia? Estão caindo aos pedaços?
Assim, à primeira vista, quem leu, ouviu ou assistiu a essas notícias bem pode ter imaginado os deputados estaduais, em reunião, decidindo de que maneira dar cabo nas sobras de caixa do Legislativo. Uma reunião daquelas em que todos os integrantes vestem smoking, fumam charutos, bebem champanhe e dão sonoras gargalhadas de tédio, cinismo e desdém por aqueles que os investiram na autoridade pública. Então um deputado se levanta e sugere a compra de uma nova frota de automóveis. Risadas. Outro acrescenta que só se forem importados. Mais risadas. Um outro, ainda, pediria a palavra e, numa pausa dos risos, falaria em tom grave, circunspecto: Estou de acordo que seja feita essa compra, desde que o veículo seja sóbrio, de uma cor séria, design distinto, sem ostentação, que transmita a todos um aspecto de estabilidade, solidez, e, claro, que simbolize nossa contemporaneidade... Gargalhadas desbragadas. Seria um quadro grotesco diante do momento de crise mundial, nacional, regional e local, quando a palavra de ordem é austeridade.
Claro que não foi isso que aconteceu. Claro que a Assembléia Legislativa se mantém como ponta-de-lança das mudanças e reformas em nosso Estado, e sabe perfeitamente o tamanho dos cofres públicos. Sabe, também, que o Poder Executivo deve estar cortando na própria carne para atingir metas de contenção de despesas. Sabe que o Poder Judiciário, sob nova presidência, está fazendo varredura em todos os cantos com o objetivo de cortar excessos e diminuir gastos. É evidente que o Poder Legislativo, tribuna da mentalidade social, não ficaria de fora dessa força-tarefa em benefício do Paraná.
A Assembléia Legislativa é sensível ao momento histórico. Tanto que, em seguida ao bafafá, comunicou ao povo sem-1.0 que não era nada disso, que o que se aventava era o aproveitamento de uma oferta de ocasião, imperdível... E que agora a idéia era adquirir apenas alguns automóveis, todos nacionais, da marca Renault...
Em momentos de crise, a classe dirigente precisa medir milimetricamente suas frases. A Revolução Francesa foi um fenômeno muito complexo, decorrente de vários fatores. Mas o estopim certamente ardeu quando os franceses ouviram dizer que a rainha Maria Antonieta teria dito, decerto num lapso de leviandade ou um mal-entendido, que se o povo não tinha pão para comer, que comesse brioches. O povo ficou enfurecido.
De minha parte, observei a reação do deputado em quem votei. Não esboçou reação nenhuma. Vou esperá-lo no próximo pleito.
Em tempo 1: O esperado, realmente, acontece. O Festival de Teatro de Curitiba é o espelho da sociedade segmentada: tem espetáculos para a elite e para a plebe rude, conforme o preço do ingresso. Isso apesar de os cofres públicos estadual e municipal também estarem patrocinando o evento.
Em tempo 2: E o Oscar vai para... O poderoso lobby da Miramax.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.


