Na mesma segunda-feira, dia 23 de junho, em que a Fiesp, com base em estudo da Fipe, mostrava que o atraso da revisão constitucional reprimia em 3,7% ao ano o crescimento do PIB, o presidente Fernando Henrique Cardoso, na sessão especial da ONU sobre a herança da Rio 92, fazia duras críticas aos países ricos, por não tomarem providências para reduzir as disparidades regionais do Planeta. Enquanto Fernando Henrique bradava, em Nova York, que ‘‘a pobreza continua a prejudicar centenas de milhões de pessoas’’, a Fipe demonstrava, em São Paulo, que somente a reforma da Previdência permitirá a criação de 1,8 milhão de empregos por ano, reduzindo a miséria no Brasil.
Como se estivessem alheios a tudo isso, numerosos parlamentares, responsáveis pela votação das reformas, iniciavam uma semana de recesso branco no Congresso, por conta das comemorações das festas de São João...
Indiscutivelmente, é lícito e válido que o chefe da Nação brasileira assuma posições de vanguarda, no cenário internacional, lamentando a pobreza de seu país e a miséria da África. É justo cobrar do mundo desenvolvido providências mais concretas para o cumprimento da Agenda 21, do Tratado da Biodiversidade e dos acordos sobre as florestas e a erradicação da miséria, temas que pontuaram, há cinco anos, a antológica Rio 92. No entanto, os protestos presidenciais soam com certa ironia nos ouvidos cansados dos trabalhadores e empresários brasileiros, que, nos limites do território nacional, enfrentam enormes dificuldades para se reposicionar no cenário da globalização.
Para quem trabalha e produz, enfrentando os juros mais altos do mundo, um câmbio irreal, impostos e encargos sociais demasiadamente onerosos, carência de infra-estrutura e falta de crédito, fica a impressão de que o Brasil não está fazendo a sua parte para erradicar a própria miséria. Além disso, torna-se nítida a consciência de que, substituindo as reformas por uma rígida política monetária, o País, além de ceifar empresas, empregos, produção e salários, deixa de atender as sequelas desse estado de coisas, como denunciam, dia-a-dia, os proventos baixíssimos dos aposentados, as filas do INSS, a precariedade do atendimento à saúde, os índices de analfabetismo e a exclusão de parcela expressiva do povo dos benefícios da economia.
Seria redundante repetir que a solução de boa parte desses problemas continua à espera da revisão constitucional que, a exemplo da própria promulgação da Carta em 88, das Diretas Já e de tantos pacotes econômicos, entre eles o Real, é o novo nome da esperança para os brasileiros.
O que se pergunta, com justificável apreensão e indignação, é o por quê do atraso. Que mistérios políticos se interpõem entre o governo, o Congresso e os interesses maiores do povo brasileiro? O que mais é necessário para demonstrar ao Executivo e ao Legislativo que, sem as reformas, a Nação vai adiando o início de um processo de desenvolvimento sustentado, único caminho para a erradicação da miséria. Como falar em salubridade e ecologia enquanto o modelo econômico e a exclusão social cultivam favelas, conflitos fundiários, êxodo rural, desemprego urbano e a devastação ambiental das cidades, do campo e de extensas áreas além das fronteiras agrícolas?
As emendas constitucionais que tramitam no Congresso já não são exatamente o que os setores produtivos - empresários e trabalhadores - propugnavam. No âmbito das reformas tributária, previdenciária e administrativa, a sociedade civil já cedeu à complexa rede de acordos entre Executivo, Congresso, partidos e lideranças regionais, entendendo a velha máxima de governantes e parlamentares de que ‘‘a política é a arte do possível’’. Portanto, causa ainda maior perplexidade o fato de a revisão constitucional ‘‘possível’’ continuar travada.
Nesse contexto, brota uma sensação demasiadamente amarga: por mais culpa que se possa imputar aos países ricos pela miséria hemisférica ao Sul do Equador, por mais eloquentes e incisivos que sejam os discursos na ONU é indisfarçável a omissão do Brasil na solução de seus próprios problemas. Assim, antes de cobrar responsabilidades alheias, seria muito mais lícito e produtivo reconhecer que, de fato, não estamos fazendo a nossa parte. Afinal, a reforma da Constituição brasileira não é tarefa da Assembléia Geral das Nações Unidas ou dos governos e parlamentos dos EUA, do Japão, da Alemanha, da França ou do Reino Unido...
- MAX SCHRAPPE é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) e primeiro vice-presidente da Fiesp/Ciesp.

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