O Paraná e a crise social - René Ruschel
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de março de 1999
René Ruschel 
Segundo o escritor e jornalista Gilberto Kujawski, para o presidente Fernando Henrique Cardoso suplementar a crise social que abala o Brasil, as providências de caráter estritamente técnicas, do tipo manipulação de juros e câmbio, são necessárias, porém insuficientes para superar questões financeiras e econômicas.
Na verdade, estas nunca são vencidas somente com decisões intra-econômicas. É indispensável um apelo extra, que esteja fora das variáveis economicistas, como um gesto efetivo de natureza social, política, humana, para recolocar nos trilhos não apenas o trem da indústria, da agricultura ou do comércio, mas principalmente, tomando medidas concretas e palpáveis visando encorajar e devolver esperança a milhões de brasileiros.
Nesta mesma linha de raciocínio, vemos que o Paraná não ficará imune às dificuldades que se avizinham no horizonte verde-amarelo. Até meados desta década, éramos um Estado quase eminentemente agrícola; hoje o setor industrial deverá ocupar uma fatia significativa do PIB regional, haja vista a atividade das empresas que aqui se instalaram. A questão crucial é que a crise rompeu seu dique exatamente no momento que boa parte delas, principalmente as montadoras de automóveis, dariam início a uma produção em larga escala. Consequentemente, a política de geração de emprego e renda esperada pelo governo do Estado deverá sofrer uma queda acentuada em índices; ou então, caminhará a passos muito aquém do que se esperava para a virada do século.
Pois é exatamente neste vácuo que o governador Jaime Lerner poderá exercitar o que seus adversários mais têm criticado em sua administração: a retomada, com ênfase, do incentivo a agricultura. Aliás, uma conceituada empresa de consultoria - Rosemberg & Associados - prevê em seu cenário macroeconômico, não sem uma certa dose de otimismo, que o PIB nacional poderia cair em apenas 1% caso a agricultura consiga impedir uma retração maior em face dos efeitos benéficos da desvalorização cambial sobre a renda agrícola, movimentando a economia a partir do interior do País e provocando um efeito dominó sobre as atividades industriais dos grandes centros.
Entretanto, não bastaria impor um modelo tradicional que estivesse ao alcance apenas dos grandes produtores; ao contrário, seria necessário buscar uma política alternativa agressiva e que viabilizasse também os micros, pequenos e médios. Uma por exemplo, o Incentivo a agricultura. A título de ilustração, Piracicaba (SP), detém uma área de 50 mil hectares de cana-de-açúcar, mas estima-se que entre dois e cinco anos a área seja 50% menor. Lá, já existem produtores que trocaram a cana-de-açúcar pela banana e atualmente lucram até dez vezes mais com a fruta na mesma área em que antes cultivavam a gramínea.
Ora, no Paraná, os pequenos e médios municípios têm sua economia basicamente voltada à agricultura. Apesar dos revezes sucessivos, os produtores insistem em manter-se atrelados às culturas tradicionais e que, na maioria das vezes, resultam em safras consumidas - quanto muito - pelo auto sustento familiar. Assim, não há qualquer expectativa na melhoria de renda ou mais condições de vida desta população, valendo-se da velha teoria econômica do círculo vicioso da pobreza. A partir da produção agrícola, poder-se-á incorporar novas atividades à cadeia produtiva, como polpa de frutas, fábrica de doces, a própria venda in natura, como já tem acontecido com sucesso em regiões miseráveis do Nordeste brasileiro.
Para tanto, é necessário em primeiro lugar vontade política; depois, a elaboração de um projeto ambicioso que envolva diversos segmentos da sociedade, como governo do Estado, municípios, Sebrae, Senar, federações patronais e de trabalhadores, universidades, escolas agrícolas, órgãos de fomento e pesquisa, entre outras instituições, buscando oferecer aos produtores subsídios de toda ordem, tais como qualificação tecnológica, estudos de mercado, orientação de manejo do solo, plantio e colheita.
Quanto aos recursos financeiros, certamente que um projeto elaborado dentro dos padrões técnicos e sem uma visão populista e politiqueira, poderia ser muito bem aceito por órgãos como Bird ou BID.
Pode parecer um retrocesso econômico se pensar numa economia em escala quase familiar quando o mundo já não tem mais fronteiras e a biotecnologia é a grande vanguarda dos business commodities. No entanto, basta um giro pelo interior do Estado para verificar as necessidades mais imediatas da grande massa, principalmente nas zonas rurais ou periferias das cidades.
Um projeto desta natureza certamente seria fundamental para o aumento da renda e do nível de emprego nas regiões mais carentes, pois, além de fixar o homem no campo, faria com que deixasse de lado o eterno sonho da cidade grande, que fatalmente se transformará, para maioria, num grande pesadelo.


