Todo sistema político é definido não somente por seus princípios teóricos mas também pelo processo histórico em que está mergulhado. É que dentro das ciências políticas contemporâneas a encarnação histórica joga um papel decisivo.
O homem é visto como moldado pela história. A história não é um saber de museus nem um conhecimento de antiquário mas a ferramenta mais idônea para entender nosso presente e abrir-nos para o futuro. E para o caso do meu país, a Republica do Paraguai em particular, e para a nossa América Latina em geral, esse princípio é mais que decisivo, é fundamental, ainda que paradoxalmente - é justo reconhecer - essa mesma história é a que em muitas ocasiões nos tem impedido ser o que gostaríamos de ter sido, povos maduros política e economicamente.
Certamente, há mais de um século, o filósofo alemão Hegel, observando as lutas de independência que os nossos povos travavam, havia afirmado que a América - por causa de sua turbulenta busca pela liberdade - estava fora da história, era ‘‘apenas’’ o continente do futuro. Infelizmente, a primeira parte do julgamento do filósofo alemão foi certeira: a América Latina sofreu o açoite de caudilhos e revoluções, lutas fratricidas e instabilidade política durante grande parte de sua história independente. A liberdade obtida pela Mãe Pátria não se consolidou em nossos povos, a estabilidade se esquivou de nós e a fortaleza de nossas democracias foi frágil. Estávamos fora da história da razão e da modernidade.
Assim, no século XIX e grande parte do XX, sofremos os embates do flagelo autoritário auto-imposto, inclusive algumas vezes importado.
O futuro visto pela aguda observação do pensador alemão - a de ser um continente do futuro - contudo, foi certeira. Observação que se cumpre na história de nossos dias. É que nossa América Latina é hoje o futuro de então, ou seja, um continente maduro politicamente que constrói sua democracia olhando para o terceiro milênio.
São três os fatores básicos - ainda que não os únicos - que têm permitido a governabilidade do atual processo político paraguaio, que é inédito na história do nosso país: o fator político, o educativo e o econômico. Tentaremos sintetizar cada um destes fatores.
O fator político que tem feito governável o novo regime de governo do Paraguai poderia resumir-se em um elemento e um momento bem diferentes. O primeiro, o elemento, tem sido a elaboração do novo marco jurídico democrático com a Constituição de 1991, e o segundo, o momento, tem sido o nascimento de uma nova etapa histórica de nosso país com a superação do sistema de democracia ‘‘tutelada’’ após a tentativa de golpe militar em abril deste ano.
O segundo fator que está ajudando a uma maior flexibilidade na governabilidade do sistema político é a reforma do sistema educativo. Um sistema que esteve durante muitos anos a serviço do autoritarismo mais abjeto. Para o Paraguai de hoje, a educação tem prioridade política, porém de uma política sã e aberta, de cara para o século XXI. A filosofia da educação de nossa administração é a antítese da tradição autoritária de nosso país: é democrática, aberta, tolerante, centrada na liberdade dos educandos. Queremos que a educação de nossos jovens esteja a serviço de todos, que seja integradora, que defenda o bem comum, e não responda mais a interesses meramente partidários como ocorreu no passado.
A educação das novas gerações pretende ser tudo o que não foi a educação do tempo anterior, ou seja, aspira a ter diálogo e ser crítica, democrática e participativa, humana e solidária, aberta à modernidade mas enraizada na mais profunda das culturas autóctones de nossa memória pré-colombiana.
Creio sinceramente como presidente de uma nação biológica e historicamente jovem - onde 70% da população tem menos de 40 anos de idade - que devemos aprender das ricas tradições e sabedoria de nossos irmãos indígenas que, por muito tempo e produto de nossa desídia e imperdoável esquecimento, têm sido relegados a cidadãos de segunda e terceira categorias. A nova educação paraguaia, como elemento fundamental para a governabilidade de nossas instituições democráticas, pretende incluir e ter respeito com essas etnias assim como com qualquer irmão estrangeiro.
Finalmente, o fator econômico se constitui no terceiro eixo sobre o qual temos feito girar a governabilidade institucional. Somos da opinião de que um desenvolvimento econômico sustentável é condição necessária para uma democracia moderna e competitiva. Desenvolvimento que, conforme o projeto de minha administração, deve implementar-se com base em uma autonomia de mercado, livre e respeitosa com os interesses particulares dos agentes econômicos mas sem deixar de atender às necessidades sociais tão cruciais em países nos países em desenvolvimento como o nosso.
Desde meu juramento como presidente, em 15 de agosto de 1993, me comprometi a consolidar a democracia impulsionando reformas econômicas que ponham nosso país em um lugar ótimo para competir e integrar-se às novas exigências que começam a se formar em nosso continente e no resto do mundo.
Com o objetivo de impulsionar este projeto econômico nossa política externa tem se concentrado preferencialmente no fortalecimento da integração econômica regional cujo eixo é o Mercosul, pois temos a convicção e certeza política de que o processo integrador latino-americano constitui a base não somente da inserção de nosso país no mundo, mas da governabilidade de nossa democracia. Seguindo este espírito temos realizado inúmeras atividades nos campos econômico e comercial com o propósito de fortalecer o relacionamento de nosso mercado interno com outros processos econômicos internacionais.
Para o governo paraguaio um princípio econômico é claro: a integração regional e internacional é um elemento fundamental para a consolidação da democracia. O governo tem a convicção de que o investimento no aparelho produtivo, melhorando a eficiência, é fundamental para tornar a economia forte. Ainda que o aumento das arrecadações fiscais, graças a melhores e mais eficientes sistemas de controle, tem sido significativo, esta política, contudo, não é suficiente. O governo se vê comprometido com a redução do aparelho estatal, impulsionando privatizações que possam gerar investimentos, eficiência e barateamento dos serviços como o caminho mais rápido para a modernização.
A estabilidade e governabilidade que está sendo alcançada pelo governo paraguaio não tem sido fácil, mas produto de um esforço sustentado dos três fatores mencionados, com apoio da sociedade civil e da classe política. O caminho ainda é longo mas as bases já estão colocadas. Creio que um futuro de otimismo e progresso se abre entre nós. Nós latino-americanos devemos ser conscientes de que vivemos hoje um tempo, como dizia o pensador mexicano Leopoldo Zea, onde é urgente aprender de um passado autoritário que, pelo fato de ter sido, não tenha necessidade de voltar a ser.
Como presidente de uma república latino-americana castigada por um passado de autoritarismos, iria ainda mais longe, e diria que vivemos um tempo de tons bolivarianos, pois o ideal com que sonhava o Libertador parece ao fim instalar-se em nosso continente, ainda que seja com traços diferentes: o ideal de uma região solidária e integrada, pluralista e soberana, uma comunidade que seja mais que uma mera associação de países unidos por interesses: em suma, de ser aquilo que Simón Bolívar deixou escrito sutilmente em sua Cata da Jamaica: uma nação de nações que aspire à universalidade pelo caminho da irmandade.
- JUAN CARLOS WASMOSY é presidente do Paraguai.

mockup