Um dos fenômenos mais importantes da estética facial contemporânea é o número crescente de pacientes que chegam à cirurgia depois de terem realizado sucessivas intervenções na tentativa de evitá-la.

A proposta de um rejuvenescimento sem cirurgia é naturalmente atraente. O problema surge quando procedimentos que têm indicações específicas passam a ser utilizados repetidamente para tentar corrigir alterações que são essencialmente estruturais: queda dos tecidos da face, perda da definição mandibular, flacidez cervical e excesso de pele.

Nessas situações, mais procedimentos não significam necessariamente maior rejuvenescimento. Muitas vezes significam apenas uma tentativa progressivamente mais complexa de compensar uma alteração anatômica que continua presente.

Além disso, existe outro aspecto que merece atenção. Alguns desses tratamentos provocam alterações nos tecidos, seja pela formação de colágeno cicatricial, por reação inflamatória, pela deposição de materiais ou por queimaduras. O mesmo remodelamento tecidual responsável pelo efeito desejado de determinados tratamentos modifica a anatomia encontrada depois durante uma cirurgia.

Tecnologias de ultrassom microfocado, por exemplo, geram compactação dos tecidos profundos, o que dificulta os procedimentos cirúrgicos.

Raciocínio semelhante deve ser aplicado aos chamados bioestimuladores. Substâncias como hidroxiapatita de cálcio e ácido poli-L-láctico são utilizadas justamente por sua capacidade de provocar a formação de colágeno. Cientificamente é comprovado que realmente aumenta o colágeno local, porém durante a cirurgia observamos que esse colágeno formado é completamente diferente do colágeno normal, se assemelha mais ao colágeno de uma cicatriz.

A preocupação é ainda maior com materiais permanentes. Preenchedores como PMMA e silicone podem permanecer indefinidamente nos tecidos e estão associados a complicações tardias como migração, nódulos, granulomas e reações de corpo estranho.

Até mesmo o ácido hialurônico merece uma nova interpretação. Tradicionalmente descrito como um preenchedor “temporário”, hoje sabemos que sua presença nos tecidos pode ser muito mais prolongada do que se acreditava. Produto residual foi identificado em alguns pacientes até 15 anos após a aplicação.

Portanto, a questão não é simplesmente escolher entre cirurgia ou procedimentos não cirúrgicos.

O ponto central é reconhecer quando um tratamento minimamente invasivo está tratando adequadamente aquilo que se propõe a tratar e quando ele começa a ser utilizado para compensar uma alteração anatômica que necessitaria de outra abordagem.

Em determinados pacientes, uma sequência crescente de preenchimentos, bioestimuladores e tecnologias pode proporcionar melhorias temporárias sem modificar substancialmente a evolução da indicação cirúrgica. E quando a cirurgia finalmente é realizada, o cirurgião pode encontrar uma anatomia diferente daquela de uma face nunca submetida a essas intervenções.

Por isso, quando existe uma possibilidade real de cirurgia facial no futuro, o planejamento dos tratamentos prévios também deve fazer parte da estratégia de longo prazo.

Rejuvenescer não significa realizar sucessivamente todos procedimentos disponíveis no mercado. A estratégia ideal é com prevenção e tratamento individualizado conforme cada alteração; alterações cirúrgicas são tratadas com cirurgia, alterações passíveis de tratamento menos invasivos podem ser tratadas, mas com limitação de frequência.

Como cirurgião, do meu ponto de vista, procedimentos eficazes e com baixo impacto negativo durante o procedimento cirúrgico são: laser de CO2, microagulhamento com drug delivery e toxina botulínica.

Eduardo Mazão Miranda é médico cirurgião plástico, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

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