O paradoxo da solidão em tempos de hiperconectividade
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segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Espaço Aberto 
Vivemos na era da conectividade! Nunca antes, pessoas de diferentes e distantes localidades estiveram tão próximas graças aos sofisticados meios de comunicação e interação social, propiciados pelo avanço tecnológico.
Além de promover uma “aproximação” virtual dos indivíduos, a tecnologia impactou também no modo de vida contemporâneo, permitindo uma inédita auto suficiência. Atualmente, há um certo orgulho coletivo em torno da (falsa) percepção de que “ninguém precisa mais de ninguém”. A realização da grande maioria das tarefas cotidianas pode ser desempenhada individualmente, com o auxílio dos mecanismos tecnológicos; diferentemente do que ocorria há décadas e séculos atrás, quando era imprescindível a união de esforços para a realização de tarefas simples, que mantinham a sobrevivência de famílias ou grupos.
No entanto, a despeito da alta interconectividade e da expansão das autonomias, em várias situações, o individuo contemporâneo se sente só e, muitas vezes, infeliz... Segundo estudos elaborados pela Universidade da Califórnia, 76% dos americanos apresentam níveis moderados ou agudos de solidão. Na Inglaterra, 66% da população possuem sintomas de solidão crônica. No Brasil, índices apontam para a expansão da sensação de solidão em dois níveis, quando o indivíduo encontra-se, de fato, pouco inserido ao convívio com seus pares, ou, quando, ainda que esteja cercado por outras pessoas, sente-se profundamente solitário.
O que nem todos sabem é que a solidão é altamente nociva para a saúde. Segundo a pesquisadora Julliane Holt-Lunstad, solitários têm 29% a mais de chances de sofrer doenças cardíacas, 32% a mais de ter um AVC e são 200% mais propensos a desenvolver Alzheimer.
Interconectados, porém solitários, autônomos, porem infelizes. Tais paradoxos contemporâneos levam a alguns questionamentos. O individualismo é o caminho para a realização plena de um ser humano? A apologia do “ninguém precisa de ninguém” leva ao caminho da verdadeira felicidade?
Em Genesis 2, 18, Deus disse: “Não é bom que o homem fique só, far-lhe-ei uma companheira que lhe seja semelhante” Muitos séculos depois Jesus prometeu ”Eis que estou com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20), pois sabia que para que um ser humano seja, de fato feliz e completo, é imprescindível que se sinta amparado e verdadeiramente acolhido.
O homem e a mulher não foram forjados para a solidão, mas sim para uma vida de comunhão, não somente com seus pares, mas também com Deus. Comunhão que não se alcança por meio de relacionamentos rasos, vazios e efêmeros, mas sim através de verdadeiros afetos, que proporcionam o sentimento de acolhimento e pertença, tão necessários para a felicidade e o sossego da alma.
É preciso estar alerta para não embarcarmos no trem da vida sem antes analisarmos onde ele nos levará. O mundo contemporâneo prega que o individualismo é mais importante do que a dedicação a relacionamentos genuínos, profundos e concretos, tenta convencer também, que não vale a pena suportar as pequenas (e grandes) dificuldades que, muitas vezes, compõem o mosaico das relações humanas. No entanto, o que os “tutoriais” de vida contemporânea não explicam é que, são nos elos emocionais verdadeiros, por vezes trabalhosos, estabelecidos entre nossos pares, que nos abastecemos, mutuamente, do maior e mais nobre dos sentimentos, o amor verdadeiro, que nos garante preciosas e insubstituíveis sensações de bem-estar, acolhimento e pertença.
GLAUCIA CARDOSO TEIXEIRA TORRES, mestre em Direito pela Universidade Estadual de Londrina, professora de Direito Civil na Unicesumar - campus Londrina e coordenadora da catequese de Iniciação à Vida Cristã na Paróquia Santana


