O assassinato da ex-primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto pode resultar em novos e grandes distúrbios naquele país, com repercussões também no Ocidente. Os Estados Unidos têm nessa república do sul da Ásia um ponto estratégico de apoio e não estão indiferentes ao episódio sangrento que resultou na morte de Benazir, ela que foi chefe do governo paquistanês em dois mandatos inconclusos: de 1988 a 90 e de 1993 a 96. Exilada na Inglaterra por corrupção (em parceria com o marido), a denominada ''líder dos pobres'' havia regressado ao seu país em outubro último e ambicionava retornar ao poder.
Não se sabe quem está por trás desse atentado e acredita-se que o caso nunca seja suficientemente esclarecido. O Paquistão é o lar dos grupos extremistas Taliban e Al Qaeda, que não tinham boas relações com Benazir. Mas não eram apenas estes os inimigos dela no país. O governo militar e ditatorial no poder, de Pervez Musharraf, era ferrenho adversário da ex-primeira-ministra e assumira por via de um golpe militar comandado por ele, em 1999, levando-o dois anos depois a assumir o comando do país. Em 2002, mediante um referendo considerado inconstitucional e contaminado por irregularidades, Musharraf conseguiu mais 5 anos de mandato.
O Paquistão, que tem 142 milhões de habitantes (95% muçulmanos), quase todos dependentes da agricultura, tornou-se república independente da Índia em 1956. Essa separação foi inevitável pela intensa pressão da maioria muçulmana que queria uma nação própria. Situado no vale fértil do rio Indo, com clima muito quente no verão e inverno rigoroso, produz e exporta arroz, algodão e têxteis. Ali tem havido pouca paz, porque os conflitos com a Índia foram constantes, sobretudo pela disputa do território de Caxemira.
A civilização dessa região remonta a 4 mil anos a.C. e nos últimos tempos o Paquistão experimentou regimes governamentais presidencialista, parlamentarista e militar-ditatorial. A populista Benazir Bhutto não conseguiu se livrar da tentação que assedia os governantes e, quando no poder, também chafurdou na corrupção. Ainda hoje o Paquistão é um reduto de atraso econômico, de instituições corrompidas, de instabilidade política, de cerceamento de liberdades e de desordem. Governos de todos os matizes nunca conseguiram eliminar essas mazelas.
Contudo, a ignorância maior é a corrida armamentista. O Paquistão atrasado tem armas nucleares e mísseis de longo alcance, no que se ombreia com o país do qual se tornou independente, a Índia. Todos esses ingredientes, somados à tensão interna (e exterior) motivada pelo assassinato dessa mulher de grande força política e incômoda para o regime vigorante, abrem espaço para mais distúrbios. Como conclamou um morador de Karachi (uma das principais cidades paquistanesas), ''que Allah salve o Paquistão''!

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