O papel das elites
O papel das elites
Ricardo Prochet
No último dia 2, li o artigo na Folha intitulado A verdadeira elite culpada da história, em que o autor, um ilustre jornalista de São Paulo, menciona dentre outras coisas que a elite se resume a um automóvel blindado, e mais ainda, que teríamos dificuldades em identificar essas elites em meio da enorme confusão em que andam metidos nossos detentores de cargos públicos, misturando conceitos de legitimidade e legalidade do Poder.
Em toda e qualquer comunidade existem sempre alguns indivíduos, geralmente pouco numerosos, que pelo seu elevado índice de cultura, pela sua experiência que decorre de idade avançada, pela sua capacidade de liderança, são abertamente reconhecidos como integrantes de uma elite, sendo entretanto um erro a suposição de que com essas pessoas, esgota-se o perfil daquela.
Em quase todos os segmentos da comunidade iremos encontrar integrantes de uma elite, como educadores, empresários, jornalistas, clérigos, escritores, artistas, operários e tantos outros, dotados de sensibilidade e de capacidade de captar aqueles anseios normalmente difusos no ambiente social. Esses anseios vão sendo pouco a pouco conhecidos e atualizados, por possuírem dinâmica própria e despojados de conotações partidárias passam a se cristalizar na síntese do que deseja a comunidade.
É importante notar que o conceito das elites aqui exposto atribui a elas graves responsabilidades, sendo inteiramente diverso daquele conceito de uma elite irresponsável e aproveitadora, definitivamente sepultada pela revolução francesa.
Como se pode facilmente ver, a existência de uma elite esclarecida e atuante torna-se fator vital, e por isso, indispensável à prática da democracia, e na medida em que a comunidade se desenvolve é normal o surgimento de um número crescente de indivíduos que passam a se ocupar de seus problemas, desejosos de participar de alguma forma na solução dos mesmos.
Naturalmente, não se deve, nem de longe, cogitar da existência de uma elite arregimentada, de pensamento uniforme e que pretende impor seus pontos de vista de forma abusiva colocando-se acima de tudo e de todos, divorciada dos anseios populares a ponto de solapar o princípio da autoridade, sem o qual torna-se impossível uma ação governamental equilibrada e eficaz.
É notório, e ninguém é capaz de tentar contestar, que o município de Londrina encontra-se num verdadeiro beco sem saída, no que diz respeito ao descalabro político a que foi levado pela malversação de recursos, com suspeitas de desvios e obras de necessidade e oportunidade discutíveis, ditadas pelo capricho pessoal, sem que a comunidade, através de suas elites opinasse sobre elas.
As coisas foram se processando ao arrepio da conveniência geral, sem qualquer manifestação consistente das elites que se quedaram impassíveis e, em, certa medida, omissas diante da perversa sucessão de desmandos.
A elite londrinense tardou a aperceber-se do que ocorria no Poder Público de sua cidade. No entanto, tão logo apareceram as primeiras suspeitas em relação aos desvios, ela imediatamente intercedeu coordenando os movimentos de vigilância e cobrança de atitudes que vão até a cassação do atual prefeito.
Ainda em relação ao nosso caso, os suspeitos têm o que temer, pois diferentemente do que observamos em outras cidades, aqui não são ex-mulheres que comandam o movimento e sim as elites municipais e que não descansarão enquanto não estiverem todos os envolvidos devidamente punidos. Que se cuidem também vereadores e secretários que atrasam deliberadamente os processos necessários a essas punições, pois as elites não se esquecerão de execrá-los nas urnas das próximas eleições.
Cogitou-se recentemente a aprovação para formação de novas Comissões Processantes em nossa Câmara, e aqui não se trata de discutir se é justo ou merecido, pois certamente o é, mas sim questionar se houve respaldo da elite para sua recusa ocorrida em 2 de maio. Trata-se ainda de questionar se os componentes do Poder Legislativo, ainda que legalmente em pleno exercício de seus mandatos, têm o direito de tomar decisões de recusa das investigações, que não refletem o desejo do povo que lá o colocou. Será muito difícil inferir-se que a expressa delegação de poder que anteriormente receberam do povo não está tecnicamente revogada através desses anseios de investigação profunda?
Eis aí a sutil diferença entre conceitos de legalidade e de legitimidade, cabendo ao Poder Judiciário ocupar-se do primeiro e às elites responsáveis do segundo, pois tudo que não seja capaz de contemplar os anseios e aspirações da comunidade certamente não é legítimo, na concepção da vida democrática.
- RICARDO PROCHEt é diretor do Sindicato dos Professores das Escolas Particulares, professor universitário, empresário e consultor de empresas em Londrina
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