Após Tancredo Neves ser eleito presidente, pelo colégio eleitoral, seu adversário Paulo Maluf saiu dizendo que era ele o grande arquiteto da reconstrução da democracia. Pois ao perder para Tancredo legitimou o nome do primeiro presidente civil, depois dos governos dos generais.
Coisas de Maluf. O que ele queria mesmo era vencer. Imaginava ter apoio dos militares. Não deu. E ele se saiu com essa de ter dado sustentação para a vitória da oposição naquela época.
A intenção de Maluf não era essa. Ele estava pouco se lixando para o restabelecimento do processo democrático. Queria ser presidente. Mas querendo ou não acabou sendo o avalista da eleição indireta de Tancredo.
Nos dias de hoje o que anda acontecendo? Diante das pesquisas e dos últimos fatos, já começa a surgir novamente a hipótese de FHC ganhar a eleição no primeiro turno. Então a pergunta que fica é essa: o que está fazendo Lula nessa eleição?
Do jeito que vai, Lula caminha para ser o principal eleitor de FHC. A figura que vai legitimar a vitória de FHC e também o instituto da reeleição.
Será que é esse o papel que a oposição quer? Lula é uma pessoa inteligente e tarimbada, mas parece que não está fazendo nada para reagir. Fica pensando em melhorar a imagem, ser agradável e, enquanto isso, o quadro vai se definindo cada vez mais, com maior clareza: uma derrota iminente.
Derrota faz parte do jogo. Mas parece que a oposição não se deu conta da sua função nesse momento. E assim parte para uma jornada alegre que terá como fim assinar em baixo o novo mandato de FHC. O presidente ficará eternamente grato com a ajuda, com esse papel de coadjuvante desempenhado pela oposição.
Ter Lula na parada era tudo o que o Planalto queria. Esse desejo não era segredo para ninguém. Mas o PT caiu no alçapão de forma voluntariosa e destemida como é bem do seu estilo. Agora o governo navega em mares mais tranquilos.
No começo da campanha, FHC ainda fazia declarações para tentar estabelecer as diferenças entre o governo e a oposição. Agora nem mais isso faz. Vai em frente sem prestar muita atenção na turma do gargarejo. E a coisa vai bem, segundo o governo. Tão bem que a Terezinha, cozinheira de FHC, já passou férias na Grécia.
O governo apostou no primitivismo do PT, na sua avaliação econômica e social datada, e parece que apostou certo. Até 4 de outubro muita coisa ainda pode acontecer, mas a tendência é não acontecer nada. Assim o PT pode tranquilamente cumprir o seu destino histórico de ser medíocre. No mundo todo a oposição vira governo, ou pode virar governo, como Europa, na América Latina. Aqui não. Falta competência para isso.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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