EDITORIAL
O papel da ONU
A História da Humanidade pode ser contada pelas guerras que o ser humano trava desde que começou a existir na face da Terra, conforme assinala com propriedade o historiador Henry Thomás. Todas as batalhas que foram travadas ao longo dos tempos, porém, não se comparam ao horror que este século, próximo de seu fim, testemunhou. As duas grandes Guerras Mundiais, que ceifaram mais vidas que todas as precedentes (mais de 80 milhões de mortos, em um cálculo otimista) representam, sem dúvida, o auge da estupidez humana. O citado Henry Thomás, aliás, assinala em um comentário que o homem poderia ter evoluído bem mais rapidamente ao longo de sua História se houvesse buscado a paz e não a guerra.
De qualquer modo, quando a 2ª Guerra Mundial ia chegando ao final e revelava-se todo o horror deflagrado pelo homem em quase todo o planeta naqueles 5 anos de trevas, perpassou pela humanidade um desejo ardente de que esta situação mudasse. E no ápice deste sonho para a construção de um mundo de paz é que surgiu a Organização das Nações Unidas. Nasceu para ser o grande fórum mundial em que as nações pudessem resolver seus problemas e dissenções sem o uso da força, apelando para a negociação e o diálogo. Surgiu para determinar que não houvesse mais guerras entre os homens.
É certo que este sonho maior da ONU não se concretizou. A guerra fria, que surgiu logo após o encerramento do conflito, deixou o mundo dividido. Entretanto, não é demais considerar que, apesar de tudo, a ONU, com a presença de homens dispostos a lutar pela paz, acabou servindo para que, ao menos, não acontecesse a tão temida (e talvez final) Terceira Guerra Mundial. Não poucas vezes, o mundo pareceu perto do que seria o grande holocausto. Mas prevaleceu um mínimo de bom senso e este confronto final não ocorreu.
Todavia, aconteceram - e continuam a ocorrer - muitos e dramáticos conflitos. Apesar de todo o horror já presenciado, com as tentativas de destruição maciça de uma raça pelos nazistas, na 2ª Guerra, novas ondas de genocídio foram assinaladas nos últimos anos. Na ex-Iugoslávia, em Kosovo, por toda a África e, agora, em Timor Leste, têm ocorrido crimes inomináveis. E é só uma organização como a ONU que deveria ter condições para modificar esta realidade. Infelizmente, porém, como já se viu em outras ocasiões e como está se repetindo em Timor, tarda a ação mais direta, objetiva e firme do organismo mundial.
O que está acontecendo em Timor Leste, logo depois de tudo o que vinha ocorrendo em Kosovo, deveria servir de lição definitiva para a humanidade. Às vésperas do fim do século, de um novo milênio que muitos consideram o início de uma nova era na vida do ser humano, é vital que se mudem drasticamente as relações entre os povos e que se concretize efetivamente o papel que se sonhou para a ONU, em seu nascimento. O esboroamento do comunismo na Europa Oriental, a profunda mudança na relação de forças entre os povos que disto decorreu, a imensa possibilidade de entendimento das nações que se percebe com os fatos que marcaram esta última década, tudo isto indica que é plenamente possível ao mundo efetivamente trilhar por novos caminhos.
E é certo que esta mudança passa por um fortalecimento do organismo mundial que pode, hoje, realizar a tarefa que lhe foi conferida. O mundo precisa despertar para esta nova realidade e deve ampliar os poderes da organização que representa o anseio por uma nova era no relacionamento entre as nações. Uma firme intervenção em Timor Leste, acabando com o genocídio que se tenta ali, poderia ser um bom começo para esta nova situação.

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