O papel da escola pública
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de janeiro de 2003
Silo Meireles 
O PISA, a UNESCO, o UNICEF e o IBOPE disseram que os alunos brasileiros são os piores em leitura, lideram a repetência na América Latina, estão entre os 74% de brasileiros analfabetos funcionais e justificam dezenas de programas paralelos, que se eternizaram tentando ensinar jovens e adultos a ler.
Se a queda na qualidade do ensino é muito mais acentuada na escola pública, é evidente que toda a sociedade deve voltar a discutir o papel desempenhado por uma escola financiada com os impostos que paga. É verdade que houve um grande esforço para universalizar o acesso à escola. Mas é verdade também que o poder estabelecido ignorou sistematicamente toda e qualquer denúncia sobre a baixíssima qualidade desta mesma escola.
A alfabetização, etapa crucial da aprendizagem, foi transformada em calamidade pública. Os analfabetos foram colocados para ler e produzir textos e encorajados a formular hipóteses e a construir o próprio saber linguístico, como se isto respondesse a algum preceito científico consagrado. Os índices de evasão escolar, os milhares de analfabetos nas séries avançadas e os reprovados pelo Simave, pelo Saeb e pelo Enem, mostram a extensão e a perversidade desta calamidade. A solução encontrada para disfarçar a incompetência instalada no ensino público, foi imaginar um controvertido sistema de cotas que possa garantir, aos alunos que ele 'formar', o acesso às universidades públicas.
A qualidade do ensino fundamental reordena vários países, com modelos pedagógicos bem sucedidos se orientando por critérios objetivos de eficácia. O domínio da leitura e da escrita está na base de todo este processo e a pesquisa comparada orienta todas as ações na direção de minimizar as possibilidades de fracasso na alfabetização.
A habilidade de reconhecer e de manipular os sons do idioma, e os fonemas em particular, foi identificada, no início da década de 90, como o atributo que melhor permite prever o sucesso na alfabetização. Um número crescente de pesquisadores vêm aprofundando pesquisas nesta direção e reforçando esta constatação. São unânimes em recomendar que a alfabetização comece pelo ensino destas habilidades e que prossiga observando a concepção fônica.
Nesse modo, aprende-se inicialmente a identificar e a manipular os sons elementares do idioma (fonemas). Aprende-se então as relações entre os sons e as letras do alfabeto (grafemas). Entende-se as palavras escritas como sequências de letras que correspondem a combinações de sons que formam as palavras faladas. Desenvolve-se a mecânica e a compreensão com a leitura oral guiada. Cuba, França, Portugal, Chile, Canadá, Austrália, Itália, Inglaterra, Escócia, Irlanda, Estados Unidos, Finlândia, Alemanha, Israel, Suécia, Dinamarca, Noruega e Bélgica são países que utilizam esse método.
A sociedade é que deve definir o papel atribuído a uma escola financiada com os impostos que paga. A sociedade e que deve definir se a escola pública existe para promover igualdade de oportunidades ou existe para promover analfabetos.
SILO MEIRELES é diretor da Editora Primeira Impressão, no Rio de Janeiro


