O papagaio do pirata - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 1997
J. Roberto Whitaker Penteado 
Em meio a intermináveis partidas de golfe e futebol americano, noticiários obsessivos e reprises de vídeos manjadíssimos nas locadoras, minha TV por assinatura às vezes registra sinais de vida inteligente, como o programa da Marcia Peltier de terça-feira passada, em que apresentou a reportagem com um curioso personagem da sociedade brasileira: o papagaio do pirata.
O papagaio é, literalmente, o ilustre desconhecido. Um tipo particular de doido que vive para aparecer ao lado de celebridades e/ou qualquer circunstância ou local para onde estejam apontadas uma câmera de fotografia ou TV. Como resultado ele se torna famoso sem nada ter feito, a não ser pegar carona na fama de uma celebridade verdadeira...
Como o presidente Clinton estava em visita ao país achei a imagem jungueanamente sincrônica ao papel que parte considerável da nossa imprensa procurava atribuir ao Brasil, insistindo num inexistente debate sobre os relatórios do Departamento de Estado que continham críticas ao Brasil.
Primeiro, porque esse Departamento de Estado americano é uma peculiar instituição democrática. Foi criado em 1789, como um super-ministério que cuidava, inclusive, da emissão de dinheiro. Aos poucos, foi-se concentrando nas relações exteriores dos EUA e, hoje, é o Itamaraty lá deles. Depois, porque como outras organizações públicas de todo o mundo, o State Department mantém um site - ou homepage - acessível pela Internet em www.state.gov/www/ , onde é possível encontrar um vasto repertório de informações.
Tratando-se de um departamento que cuida das relações internacionais dos Estados Unidos, é evidente que essas informações têm a ver com organizações e países estrangeiros. De fato, no índice por assuntos - que vai de África a Women, passando por coleções de arte nas embaixadas americanas, biografias dos funcionários graduados, releases para a imprensa, solicitações de passaportes, biblioteca e a home page da ministra Madeleine Albright - encontra-se um repertório razoável de dados indiscutivelmente úteis para qualquer pessoa, especialmente quem esteja fazendo pesquisa, como, por exemplo, estudantes e jornalistas.
Sob o item countries (países) há dois subitens: informações gerais (background notes) e guias comerciais. Estive visitando os dois sites e saí de lá com material para imprimir dois alentados relatórios - um de 9 e outro de 42 páginas - sobre o Brasil, que incorporei à biblioteca da ESPM. Alguns dados são meio antigos - de 1995 - mas a maioria das informações são atualizadas e pertinentes. Observe-se que não qualquer discriminação contra ou a favor do Brasil, pois tanto as informações gerais como os guias comerciais podem ser obtidos para qualquer país do mundo, nos cinco continentes e inclusive sobre a ONU, a Comunidade Européia e a Organização dos Estados Americanos.
Um dos assuntos listados no índice é Democracia, Direitos Humanos e Trabalho e - entre eles - está o de relatórios sobre práticas de direitos humanos em países específicos, divididos em regiões: África, Ásia Oriental, Pacífico, Europa, Canadá, América Latina e o Caribe, Oriente Médio, Norte da África e Sul da Ásia. Nada, portanto, fica de fora. No relatório sobre o Brasil, além dos registros de que a constituição em geral protege os direitos humanos e de que não há, aqui, prisioneiros políticos, estão as informações de que os sem-terra foram mortos pela polícia, que continua impune por esses e outros crimes, que os pobres são os que mais sofrem com a violência, crianças são executadas, condições carcerárias são degradantes e povos indígenas continuam a perder suas terras. E daí? Algum exagero nisso, ou alguma mentira? Esbravejar contra essas críticas - que sempre estiveram lá, na Internet -, quando vem o presidente americano nos visitar, é coisa de papagaio de pirata.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola superior de propaganda e Marketing (ESPM), do Rio de Janeiro


