Virou meme na internet se um papa poderia ou deveria defender a guerra! Qualquer que fosse! Isso, porque Leão XIV parece ter incomodado o “senhor da guerra” de Washington ao usar palavras duras e excepcionalmente claras, denunciando os horrores de todo o conflito, nomeadamente o atual, contra o Irã. Por óbvio, que esta indisposição de Trump diz mais sobre ele do que sobre o assunto em questão. O atual inquilino da Casa Branca não visa o papa Leão em si; o que verdadeiramente aciona seus neurônios e estimula a destilação de raiva e ódio é a percepção de mais uma voz discordante dos seus arroubos perversos de destruição. A lista está cada vez mais extensa: o chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro ministro inglês Keir Stamer, o presidente francês Emmanuel Macron, a primeira ministra italiana Giorgia Meloni (a quem já tecera grandes elogios), o presidente do governo espanhol Pedro Sánches ou, diríamos sem exagero, a Europa como um todo!

Houve de fato épocas em que os papas defendiam a chamada “guerra justa” inspirada em textos de Santo Agostinho e que alcançou uma maior elaboração no século XVI, no âmbito das descobertas. Contudo, a partir dos anos cinquenta do século passado, essa ideia foi completamente rechaçada pelos pontífices, nomeadamente com a encíclica Pacem in Terris, de João XXIII, de 1963, que chegou a afirmar que “era totalmente irrazoável pensar que a guerra resolvesse problemas”. Paulo VI fez o mesmo na Populorum Progressio, de 1967, e João Paulo II o reafirmou em inúmeros discursos. Mas, foi o papa Francisco quem usou termos mais duros contra qualquer tipo de guerra! Em consonância com seus antecessores e com o catecismo, Francisco confirma a inadmissibilidade da teoria da guerra justa diante do poder das novas armas. Portanto, há mais de 80 anos que Roma não tolera uma vírgula belicosa!

Leão XIV é um herdeiro do papa argentino e “filho” de Santo Agostinho. Sua formação é eclética e de uma riqueza extraordinária: alguém, que não apenas compreende profundamente os textos sagrados, mas também domina a linguagem das ciências exatas (formado em matemática) e o raciocínio jurídico. Acrescente-se um dado que não é detalhe: trabalhou por anos no Peru. E outro, que no atual momento é significativo: é cidadão americano, nascido em Chicago. Os cardeais não poderiam ter escolhido mais acertadamente o papa para a terceira década do século XXI! Eis o homem que se posiciona como líder mundial moral, em épocas carentes de tal figura!

Trump não encontrou em Leão um adversário; não conseguiu elegê-lo como inimigo! O papa jamais descerá ao patamar de um megalomaníaco bélico, que mente descaradamente para afirmar-se junto aos seus seguidores. A figura de branco que percorre as estradas manchadas de sangue dos países africanos levando uma mensagem de paz ignora Trump, reduzindo-o previamente a lixo tóxico a ser devorado pela história.

Os memes são acertados! Eles encontram eco na manifestação de Meloni: “Considero inaceitáveis as palavras do presidente Trump em relação ao Santo Padre. O papa é o líder da Igreja Católica, e é correto e natural que ele peça paz e condene todas as formas de guerra”. Neste mundo disfuncional e axiologicamente fragilizado, só nos faltava que um papa viesse a público apoiar uma guerra insana e fratricida!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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