O Pantanal da Chapada
Marimbus herdou o nome dos índios sertanejos da Bahia: Terra alagada. Hoje é uma área de preservação ambiental na Chapada Diamantina compartilhada com Iraquara que reúne os municípios de Lençóis, Andaraí, Palmeiras e Seabra em 125,4 mil hectares. Um dos roteiros mais reveladores para conhecer o lugar é o que sai da cidade de Lençóis (pernoite clássico do brasiliense a caminho de Salvador) e, no mesmo dia, chegar ao quilombo do Remanso de jipe, e descer, em canoa, o deslumbrante ecossistema do Marimbu de Cima em 10 quilômetros de rio até as cachoeiras do Roncador. Depois, a volta para Lençóis pela velha estrada do garimpo serve para testemunharmos a devastação que esta atividade criminosamente predatória cometeu na região.
Tudo isso no mesmo dia com direito a um almoço magnífico na fazenda de Dona Val e Du. E se sorte tiverem de encontrar em Remanso o pescador Salvador, batizado por Rilza, militante histórica da Chapada, como Macunaíma, tais a fluência, astúcia e fina ironia dos casos.
A aula viva da natureza vale 100 mil cátedras. Mesmo quem conhece um pouco a Chapada fica extasiado com a diversidade da região dos rios Utinga e Santo Antonio e a magia de deslizar no silêncio, sustentado apenas por uma fina camada de barco tendo água, matas ciliares altíssimas, vegetação de brejo (muito piri) e juncos, golfo (flores violetas em cacho), flores brancas de aguapé, vitória-régia, etc.
Além do som, as cores de pássaros como sofrê, xanã, cabeça-de-véio, sangue-de-boi, garça, mergulhão, paturi e martim-pescador. Isso em uma sacralidade de trajeto que faz dos cinco integrantes do barco, mais o remo do quilombola Maurício, um cortejo de gratidão e sintonia raro em muitas tentativas rituais de aproximação com o divino.
Maior é o impacto da volta pelo trajeto em crateras do garimpo. Lençóis escapou do garimpo graças a uma pressão do Banco Mundial, que ameaçou cortar verbas caso o extermínio continuasse. Pelo que ainda dá para ver em rios secos, sulcos removidos, cursos desviados, montanhas de cascalhos dos leitos removidos, o garimpo de dragas industriais é uma guerra explícita contra o ambiente onde a voracidade e a cobiça predatória só deixam o rastro de miséria para os locais, enquanto enriquecem alguns.
Impacto idêntico só a cidade de Dresden, na Alemanha, que fez questão de manter áreas bombardeadas para que tenhamos uma idéia aproximada do que teria sido a Segunda Guerra Mundial.
Lençóis, livre da ameaça extrativista, deu um salto nos últimos dois anos em número de empresas de ecoturismo. Em tamanha escala eta velha dialética que já vai se fazendo necessária uma política mais clara de disciplina e senso de qualidade para saber quem chega oportunista para explorar a natureza (e acaba explorando humanos) e quem tem competência e paixão por essa atividade especial: é negócio aliado a prazer, mas exige consciência e muito conhecimento para promover trilhas e realizar guias.
A cidade, bela como sempre, está em alta pelas inúmeras aparições nas emissoras de televisão do Brasil e por merecer mesmo ser referência da beleza natural do Brasil. Mas não precisava o Iphan compactuar com a telefonia emergente do País e aceitar que uma agressiva antena dominasse a delicada tessitura da cidade-presépio.
As águas, matrizes da vida, são os veios da cidade. Mais preciosos que os diamantes antes deflorados. Marimbus é a mais nova consagração das águas da cidade. E toda água é benta quando a vida sustenta.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





