O País dos Macunaímas
A pedido do compositor Cazuza, o Brasil vem perdendo o receio e aos poucos vai mostrando a sua cara. O retrato que hoje sintetiza o momento complicado que o País atravessa é, sem dúvida, o do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, a mais recente e perfeita encarnação do Macunaíma (o herói sem nenhum caráter, criado por Mário de Andrade).
Como era de se esperar, a sociedade não gostou nada do que viu e ouviu durante os últimos escândalos levantados pela mídia: os casos do ex-senador Luiz Estevão, do ex-secretário da Presidência da República, Eduardo Jorge; e o do dinheiro desviado na construção do Fórum Trabalhista, em São Paulo, dentre outros.
Todos eles, somados à gigantesca pizza, que encerrou o festival de denúncias contra o prefeito Celso Pitta, deixaram na população a sensação de que é difícil, senão impossível, julgar e punir acusados dos chamados crimes de colarinho branco em nosso País.
Em parte, a expectativa de que ninguém será punido decorre da velocidade com que novos escândalos são descobertos e denunciados pela mídia, deixando, dessa forma, o leitor, o ouvinte e o espectador atordoados com o ritmo dos acontecimentos. À medida que fatos novos surgem e são denunciados, a mídia cede espaço a eles, esquecendo-se de informar o andamento dos casos anteriores. E assim sucessivamente.
Mas esse é apenas um aspecto secundário da questão. Há outros e bem mais importantes.
O principal deles é a defasagem entre a sociedade civil, que ao longo da última década aprendeu a se organizar e a exigir os seus direitos; e a mentalidade retrógrada ainda dominante entre nossos políticos, legisladores, juízes e burocratas em geral.
De um lado, trabalhadores, classe média e empresariado, apoiados pela mídia, Igreja, OAB e por diversas ONGs, exigem a cidadania plena; do outro, políticos, tecnocratas, legisladores, juízes e funcionários do chamado alto clero insistem em atender a essas demandas com soluções velhas, ineficazes, tópicas e corporativistas.
Isso, obviamente, deixa na população a falsa sensação de que não dá para mudar o status quo.
Mas existe ainda um terceiro aspecto que ajuda a entender esse diálogo de surdos entre sociedade civil e autoridades. Trata-se do equivocado enfoque do Estado, que ficou fora de suas atividades tradicionais (educação, saúde e segurança, dentre outras), e que prejudicou a mobilidade social.
As consequências disso foram trágicas: no vale-tudo social que se seguiu, salvaram-se apenas o empresariado; a alta burocracia, que, nas palavras de Roberto Campos, agarrou-se aos abusos adquiridos, para garantir o futuro; e parte da classe média.
Obviamente, tal situação criou um vazio enorme na área social que Estado e o setor privado, juntos, não conseguem atender a contento.
Existem soluções para todos esses problemas? Sim. E elas começam pela retomada do crescimento, redução do desemprego, distribuição socialmente mais justa da renda, continuidade das reformas (principalmente tributária, política e do Judiciário) e o fim de todos os privilégios.
A sociedade civil já se deu conta de que vivemos num País de Macunaímas e quer acabar com isso rapidamente. Cabe, portanto, ao governo a missão de interpretar corretamente os anseios da sociedade e apressar a demolição desse modelo injusto e falido. Felizmente, há tempo ainda para as necessárias reformas.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).
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