Chovia pressão, muita pressão, sobre o Palácio do Planalto e, por essa razão, Fernando Henrique correu até a catedral de Brasília, onde apelou aos céus, indo diretamente ao assunto com uma prece inspirada no Pai Nosso: ‘‘Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Proteja-me, meu Pai, por ver meu nome cada vez menos santificado pela legião de admiradores que formei, desde os tempos da velha Faculdade de Filosofia da USP, das prazerosas tertúlias intelectuais do CEBRAP e da fruição que me davam as páginas do meu saudoso livro Teoria da Dependência, que hoje procuro esquecer. Sabe como é que é, só os imbecis são incapazes de mudar, como lembrava Ortega Y Gasset. Sei que não sou santo, até ateu já confessei ser, numa entrevista ao Boris Casoy que me valeu a derrota à Prefeitura de São Paulo’’.
- Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu. Venham a mim, meu Pai, todos os políticos, principalmente os pefelistas mais profissionais, aqueles que desenham horizontes diferentes dos meus. São eles os que me dão mais motivos de alegria, na forma de votos e apoio. Mais votos que o meu PSDB, de quem começo a detestar a ciumeira que corrói as cúpulas. Nunca gostei mesmo de tucano. A ave que confesso admirar é o condor, que gosta dos pontos mais altos do poder, perdão, das montanhas. Começo a achar que no fundo do coração, sou pefelista doente. Aprendo com Marco Maciel, quase imaculado na sua função de saber mandar sem se fazer perceber. Agrada-me o poder, atrai-me a idéia de ser o centro das coisas. Pelo meu Reino, perdão, pela minha reeleição, sou capaz de fazer a vontade dos outros, mesmo que os feitos sejam contra a minha vontade.
- As reformas constitucionais caminham aos trancos e barrancos, bem o sei, porque os interesses de meus aliados congestionam o balcão de trocas. Agradeço, Senhor, a aprovação da prorrogação do FEF, que veio quase de graça. O meu Real, que Itamar insiste que é dele, vai ter fôlego para chegar às eleições, apesar dos economistas do PT acharem que a crise nas bolsas de valores da Ásia acabará sugando as nossas bolsas. Que a vontade deles, meu Pai, não seja feita, nem aqui na terra nem no céu.
- O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Ajuda-me, Senhor, a manter o pãozinho francês e o frango na boca dos 35 milhões dos despossuídos (não deve ser tudo isso; não é invenção do Datafolha), pois enquanto estiverem mastigando, terei a certeza de que Lula, Brizola, Tarso Genro, Arraes e a facção mastodônica do PMDB, de Quércia e Paes de Andrade, estarão de barriga vazia. Quanto aos policiais militares e civis, deixem que eles comam um pouco o pão que o diabo amassou, pois assim fazendo estarão comendo o prestígio de governadores. Um desgastezinho aqui, outro ali, vai bem. Me fortaleço. Ah, como é interessante, Senhor, ver Arraes protegido da fúria dos policiais militares pelo Exército que, um dia, o expulsou do Palácio das Princesas. Para Alagoas, não posso desejar a mesma idéia de meu irmão de fé, Serginho - os desalmados o chamam de Serjão - que, pegando carona em Graciliano Ramos, disse que aquele Estado se prestava melhor como um arquipélago. Obrigado, meu Pai, por me ver o nome de Collor ligado à trambiques com usineiros, ele que estava querendo renascer via Internet.
-Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal. Sei que falo demais, transformo o Planalto num palanque. É porque tenho saudades das aulas. Gosto de dizer o que sei. Uso o conhecimento como instrumento de poder. Sou respeitado mundialmente. Até se divulgou que sou melhor que Clinton. Por isso, meu Pai, cometo pecadinhos. Xingo, digo e desligo. Sei que prometo, na intimidade, muitas coisas e aliados. Depois, esqueço. Digo que a área técnica está estudando. Perdoe-me as mentirinhas, e eu vou perdoar todas as promessas de votos feitas por eles. Por tudo que é sagrado, tampe a boca do Serginho. Antes que eu perca de vez os votos do PMDB e os caminhos da ACM. Amém.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP - Associação Brasileira de Consultores Políticos

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