O egoísmo, enquanto orientação centrada no próprio interesse, não é apenas um traço psicológico individual, mas um fenômeno cultural que vem ganhando cada vez mais força em tempos de hegemonia neoliberal. Ele se expressa por uma visão fragmentada da realidade, configurando-se como uma perspectiva que separa, isola e reduz a complexidade da vida a interesses particulares. Essa perspectiva seccionada compromete a compreensão do todo, obscurece a interdependência que sustenta a existência humana e enfraquece a responsabilidade ética.

Como advertia Mahatma Gandhi, “a consciência da interdependência de todos com todos ensina a lição da verdadeira humanidade”. No entanto, vivemos sob o domínio de uma cultura do individualismo, na qual o sucesso é frequentemente medido pela capacidade de competir, acumular e se destacar isoladamente. Observa-se um culto quase patológico ao narcisismo que habita em cada indivíduo. Naturaliza-se o egocentrismo como se fosse uma extensão inevitável da condição humana, ignorando que somos, antes de tudo, seres relacionais.

A evolução da humanidade revela que, diferentemente de uma lógica puramente biológica de seleção natural, o desenvolvimento humano não apenas produziu cultura, mas também incorporou valores como o cuidado, a solidariedade e a corresponsabilidade. Foi essa capacidade de incluir, nomeadamente os mais frágeis, em nome da dignidade humana, que permitiu a construção de sociedades complexas e éticas. A solidariedade, portanto, não é um adorno moral, mas um fundamento essencial do processo de humanização.

Nossos ancestrais partilhavam o alimento em vez de consumi-lo individualmente, compreendendo a interdependência como fundamento da vida. Essa lógica de partilha contrasta fortemente com a racionalidade contemporânea, orientada pelo cálculo utilitarista e pela maximização do interesse próprio. As consequências são profundas: aumento das desigualdades, enfraquecimento dos laços sociais, indiferença diante do sofrimento alheio e uma crise generalizada de sentido.

Nesse contexto, a ética emerge como um contraponto fundamental. Entendida como escolha livre e consciente, ela se orienta pela universalidade das condutas e pelo reconhecimento de cada pessoa como um fim em si mesma. Vincula-se ao cuidado e à responsabilidade diante das consequências das ações, orientando-se pela promoção da justiça e do bem comum, com atenção especial aos mais vulneráveis.

A tradição filosófica da antiguidade já apontava nessa direção. Platão afirmava que “o bem é tudo aquilo que une”. O bem não se define por intenções individuais, mas por sua capacidade de gerar coesão, harmonia e pertencimento. Em sentido inverso, o termo grego diabolós remete àquilo que separa, divide e fragmenta, constituindo uma metáfora potente para compreender o egoísmo como força de desagregação social.

Afirmar que “o pai de todos os males é o egoísmo” não é um exagero retórico, mas uma síntese crítica de seus efeitos. Quando o indivíduo se desconecta do coletivo, rompe-se o tecido que sustenta a vida. Superar essa lógica exige mais do que mudanças individuais, requer uma transformação cultural profunda, capaz de impulsionar uma revolução institucional que priorize a dignidade da pessoa humana no lugar da liberdade de oprimir e explorar, o bem comum em vez da concentração ilimitada de renda e poder, a justiça social em contraposição à falácia meritocrática dominante.

Em última instância, o desafio contemporâneo é reconstituir a visão de conjunto, reconhecendo que a vida humana só é possível em uma teia infinita de relações e que o verdadeiro desenvolvimento não está na afirmação isolada do eu, mas na construção compartilhada do nós. Como define Emmanuel Levinas: “O eu só se constitui verdadeiramente na responsabilidade pelo outro.”

Luís Miguel Luzio dos Santos – professor de socioeconomia e ética na Universidade Estadual de Londrina


ESPAÇO ABERTO

Espaço aberto é uma seção diária, no impresso e digital, que publica artigo dos leitores e assinantes da FOLHA

Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.

COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]

ÚLTIMAS NOTÍCIAS| Acompanhe as notícias de Londrina e região no canal da Folha de Londrina no WhatsApp https://whatsapp.com/channel/0029Va8N2DN84Om5Akznga0h

mockup