O governo ensaia iniciativas para tentar evitar o aprofundamento da crise que se instalou no País há duas semanas. Fala-se em pacto. Com empresários, políticos, governadores. Proposta com cara de saída de emergência, mas provavelmente um dos únicos recursos disponíveis no momento.
O governo sabe que os responsáveis pela crise não são os empresários. Sugerir um pacto para dividir os prejuízos é fácil. Difícil será convencê-los de que o governo está disposto a retomar o discurso da transparência. O setor produtivo perdeu a referência da moeda e a confiança e lamenta profundamente a experiência de mais uma - a mais grave - crise econômica vivida neste País.
São fiadores da crise os políticos e os tecnocratas que tomam conta do País - e aí estão incluídos os governadores - os novos, que chegaram em janeiro, e os que foram reeleitos. A conta será alta para todos. É justo e recomendável que o presidente Fernando Henrique comece as negociações por aí.
A gastança generalizada ajudou a empurrar o País para o barranco. E aí está uma face do pacto que interessa a quem produz e paga imposto: acordo (para ser cumprido) entre os governos estaduais e o federal para promover cortes nas despesas, revisão de contratos. Economia.
Nada indica que o pacto pensado pelo governo dará certo. A idéia é velha, nunca funcionou. Mas, entre a sensação do imprevisível e da inércia, o melhor é que se tentem saídas negociadas, discutidas, comprometendo todos os setores da sociedade.
A tentativa do pacto deve tirar do isolamento aparente Fernando Henrique Cardoso. Políticos influentes dizem que o presidente não está para muita conversa e não tem recebido bem conselhos e palpites. Mas, ao voltar-se para a sociedade, o presidente terá que mudar de atitude.
O ministro do Desenvolvimento, Celso Lafer, que deveria assumir o comando da fase mais interessante do governo Fernando Henrique - a do progresso - é o que vem tratando de crise (e retrocesso) com o empresariado. A iniciativa foi acertada entre o presidente, o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, e o próprio Lafer. A primeira rodada já começou.
O governo fará promessas para evitar, a qualquer custo, a volta da inflação, o mal que o Plano Real parecia ter extirpado. Fernando Henrique garante que assim que a poeira baixar, os juros serão reduzidos para que o País retome o caminho do desenvolvimento.
A intenção é adiantar as correções de rumo do Plano Real. Correções reclamadas pelos empresários há meses. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fieso), Horácio Lafer Piva, primo de Celso Lafer, já previa o pior, a recessão. Por isso pedia um programa mais apertado e urgente de ajuste fiscal.
Mas o governo estava deitado em berço esplêndido - depois da reeleição - e demorou mais do que podia. O projeto dos inativos, por exemplo, que o presidente dizia ser tão importante para os ajustes programados, não foi aprovado em dezembro porque o governo não se empenhou.
Agora, o que se espera é agilidade e honestidade. Nas conversas com a sociedade, o presidente e seus ministros precisam dizer o que pensam da crise, como estão agindo e o que farão para combater a especulação e afastar o monstro inflacionário. O verdadeiro pacto é o da verdade.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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