O pacote do medo - Severino Cavalcante de Souza
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de outubro de 1998
Severino Cavalcante de Souza 
Faz parte do estilo de governo identificar cassandras em todas as vozes que prevêem dias sombrios para o País, mais é precisamente o governo quem alimenta as cassandras em tempo de crise, com os chamados balões de ensaio a preceder o anúncio de medidas que seriam destinadas a corrigir a economia. O momento atual é bastante ilustrativo a esse respeito. Vivemos um clima de pânico na sociedade, com as especulações em torno de providências drásticas, tais como o aumento de impostos e a adoção de várias outras medidas com forte carga recessiva. Para os servidores públicos, as notícias são de que haverá aumento de alíquota de contribuição previdenciária e a instituição de cobrança também para os que já se aposentaram.
Pode-se dizer que o clima de pânico vem misturado com indignação, e não falta razão para isto. Afinal de contas, é a sociedade que - injustamente - acaba pagando pelo resultado de péssimos governos e por uma crise que ela não ajudou a criar. Nossa carga tributária já é, incontestavelmente, uma das maiores do mundo, o que torna injustificável qualquer aumento, principalmente para os assalariados. Até porque há soluções alternativas. Antes de se aumentar impostos - algo que o governo sempre parece achar mais fácil - é preciso combater os sonegadores, estruturar e dinamizar os sistemas de arrecadação, fiscalização e cobrança e coibir os gastos excessivos, especialmente das administrações a nível estadual e municipal.
Talvez no momento exato em que este artigo estiver sendo lido, muitas das medidas já tenha sido oficialmente anunciadas. Outras, no entanto, certamente permanecerão no terreno das especulações, porque não há notícia de boato que se confirme plenamente, ainda mais quando o assunto é pacote econômico. A questão não se resume a distinguir o que se concretizou do que não veio a se confirmar. O grande questionamento é de esse método de terrorismo serve para o País. Todos sabemos a resposta.
O governo certamente irá culpar a imprensa por esse clima de incertezas que alimenta o pânico, que por sua vez realimenta as cassandras. Mas se há de fato eventuais exageros por parte da imprensa, é a própria equipe do governo quem contribui muito pouco, ou mesmo nada, para estancar o processo, isto quando se sabe que parte dela incentiva essas especulações. A apreensão se ramifica em todos os setores da sociedade. Os empregos da iniciativa privada temem perder o emprego. Os desempregados se vêem prisioneiros da depressão psicológica, encurralados entre a falta de esperanças e a ausência de perspectivas. Os aposentados, em sua maioria tentando sobreviver com imensa dificuldade, pressentem o fantasma da penúria completa. O amanhã de todos nós limita-se ao mau presságio.
Sabemos que o País atravessa momento de extrema dificuldade, mas é hora de mudar um método que só contribui para aguçar a crise, com reflexos inquestionáveis sobre os meios produtivos. É preciso que o governo compreenda uma vez por todas que somos brasileiros, é preciso que aprenda a dialogar com a sociedade, abandonando de vez a soberba e a auto-suficiência. Não há donos da verdade e não estamos diante de uma estrutura social dividida em reis e súditos.
O brasileiro que trabalha e paga impostos, o cidadão que cumpre com suas obrigações e o aposentado que dedicou a vida inteira ao Brasil não podem ser alijados do debate, nem pode se exigir deles a submissão dos omissos. Triste do governante que chama a si os compatriotas apenas no momento do voto.
O pacote do medo - ou o medo do pacote - não condiz com uma sociedade que demonstra maturidade e que certamente não se negará ao chamamento para a busca de soluções verdadeiras, que não são prisioneiras das quatro paredes de um gabinete ministerial.
- SEVERINO CAVALCANTE DE SOUZA é presidente da Anfip (Associação Nacional dos Fiscais de Contribuições Previdenciárias) em Brasília


