A partir de hoje, sem qualquer risco de reação nas urnas, contra o governo e seus aliados estaduais - por parte dos 50 milhões de eleitores que votaram ontem, no segundo turno do pleito de governadores - um pacote de reajuste econômico, acertado entre a equipe do presidente Fernando Henrique e o FMI, pode ser divulgado no Brasil a qualquer momento. O presidente garantira que, com ele, ‘‘não haveria pacotes nem sobressaltos’’. Além disso, a dois ou três meses do primeiro turno do pleito em que FHC foi eleito, a publicidade oficial jurava que a reforma da Previdência não prejudicaria os aposentados. Mas uma das medidas do pacote, que não prevê reajuste nos proventos de aposentadoria, obrigará os inativos a pagarem ao INSS parte do que recebem.
Duvida-se que tais promessas, não cumpridas, não hajam influído no ânimo dos eleitores que votaram agora e no dos outros 50 milhões de brasileiros que, com eles, foram às urnas em 4 de outubro, após ouvirem o presidente da Justiça Eleitoral considerar indispensável a vitória de FHC nas eleições.
O descumprimento da palavra empenhada e a surpresa de declarações indevidas ficarão para sempre na mente dos brasileiros que têm memória, como notas marcantes do último pleito presidencial do milênio e o primeiro em que se admitiu a reeleição de um presidente da República.
De qualquer forma, graças a tais artifícios, o Brasil avançará mais ainda rumo ao neoliberalismo globalizado, imposto pelo FMI, apesar das denúncias que o Papa João Paulo II faz, desde 1991, contra o capitalismo selvagem implícito naquele sistema econômico. Também foi inútil a premiação de Amartya Sem, com o Prêmio Nobel de Economia, pelos trabalhos com os quais provou que a fome e as desigualdades do mundo se devem basicamente à prática do livre mercado e a políticas públicas inadequadas.
Entre nós, o peso das palavras do papa é tão irrelevante quanto as conclusões de Amartya. Mais importantes, no caso, são as exigências do FMI e dos especuladores estrangeiros, de olho nas vantagens que o País lhes proporciona, para não falar da crítica às nossas esquerdas, feitas por Fidel Castro, governante que ‘‘se modernizou’’, segundo o presidente brasileiro. Cuba fez mais pela saúde e educação de seus concidadãos do que nossas autoridades pelos brasileiros, nos mesmos setores. Mas, se fosse cubano, FHC não teria eleições para presidente.
Os brasileiros que se preparem para 1999, quando teremos crescimento zero e, por isso, mais desemprego e fome no País. Segundo o ex-presidente mexicano López Portillo, o crescimento zero rompe qualquer tecido social e ‘‘é caminho para o fascismo’’. Um neofascismo ainda amorfo, cujos primeiros sinais podem ter sido os conflitos entre militantes de direita e de esquerda, travados em Brasília, antes do pleito de ontem. Uns e outros, angustiados pelas aflições que pressentiam no futuro, brigavam por improváveis esperanças. O pacote do FMI, que os atingiria e à nação, como o Vesúvio pegou Pompéia, estava prestes a cair sobre suas cabeças.

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