Sonhar é uma arte. Dizem até que para passarmos a noite sonhando precisamos ter vivido um dia intensamente. Na realidade, os sonhos são ‘‘uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer’’, como cantava Fernando Pessoa.
Sonhar é preciso. Assim como navegar nas acrobacias existenciais, os sonhos são a vitória sobre a letargia que nos impede de lutar e remar. É com estética que a vida deve ser vivida. A beleza dos sonhos empresta cores ao ‘‘ato simples’’ de viver. Sonhar é a estética imbuída na ética que caracteriza nosso modus vivendi.
Eu tive um sonho. Aliás, eu vivo sonhando. Assim como o ar que respiro, vivem meus pulmões impulsionados pelos sonhos que povoam meu viver. Inconformado com o status quo de uma situação incompatível com o respeito à dignidade humana como tal, sonho intensamente com o projeto original do Gênesis, em que o homem era feliz e não conhecia qualquer tipo de limitação ou constrangimento.
Derrubado pela força do ter, que subjuga o ser numa tensão constante, eu sonho com a validade permanente do homem enquanto tal. Sonhar é se inconformar. Inconformado eu peno, mas eu luto, eu choro, mas eu caminho em pé, porque eu sonho.
A realidade não é, a priori , incompatível com os sonhos. Mas ela dá a luz a sua filha mais perversa, a decepção, geradora de rebentos malfazejos que roubam dos sonhos seu melhor colorido.
Quem sonha sabe que um dia, depois da primavera, virá o outono e logo depois o inverno, mas assim como inexoravelmente a natureza não ultrapassa sua sagrada sequência, assim o sonhador, não deixa de sonhar.
A flor viçosa de um sonho anuncia a renovação intrépida do viver que simplesmente e muito simplesmente, demonstra a fé no eternamente novo e consistente.
Um sonho é a vitória sobre o inexpugnável, mesmo que o sonhador nunca chegue no topo do que acredita, isto porque todo o sonho é intrinsicamente repleto de solidariedade existencial. Lutar já é a vitória.
O outono chega nos países do Hemisfério Norte com uma carga enorme de nostalgia. As folhas amareladas, caindo suavemente e forrando o chão num tapete multicolor, fazem-nos mergulhar em recordações mil do tempo da praia, das férias, das brincadeiras e das festas.
Se aqui se fala que ‘‘amor de praia não sobe a serra’’, lá se fala que ‘‘amor de verão não passa o outono’’. Esta estação amarela o frenesi das crianças e protagoniza os adultos, que como formigas recolhem suas colheitas ao celeiro, os sonhos cedem lugar à realidade, enquanto num precoce inverno aguardam os primeiros meses do ano seguinte.
Como as folhas forram os caminhos para alimentar a seiva da própria mãe-árvore, assim os sonhos continuam fazendo história, na esperança dos que querem sobreviver ao rigor do inverno.
A decepção pode amarelar nossos sonhos, mas a força deles está muito mais além – na essência do próprio homem que não pode deixar de sonhar.
Sonho com um mundo feito de sonhos, em que sonhar e viver se confundam num enlace total a serviço do próprio homem. Sonho com uma realidade tão bela e perfeita que legitime e explique o próprio ato de sonhar.
- MANOEL JOAQUIM DOS SANTOS é pároco da Paróquia Imaculada Conceição e membro do Movimento pela Moralização na Administração Pública de Londrina

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