O otimista de fitinha verde e amarela - Roberto José da Silva
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quinta-feira, 08 de abril de 1999
Roberto José da Silva 
Verde, amarelo, cor de anil, são as cores do Brasil. Entrei no supermercado às 4 horas, vi a bandeira gigante, os balões, a fitinha tipo Senhor do Bonfim com o slogan Eu acredito!, lembrei da música que embalava a seleção canarinho de 58 (ou 62?) e embalei numa daquelas ondas otimistas que pegam a gente na esquina e fazem o coração disparar numa alegria inexplicável.
Abri o porta-luvas (?) do carro, puxei um CD de forma aleatória, enfiei no buraco do aparelho sem olhar o selo e lá vem Dominguinhos cantando o que queria explicar. Falava da alegria dessa nossa gente de valor, apesar de tudo isso que a gente lê, ouve e vê nos noticiários. Olhei para os frangos que rodavam silenciosos na maquininha e voei para o Nordeste numa foto em que vovó, de vestido florido jogando milho para as penosas no quintal do sítio, lá no interior de Palmeira dos Índios, terra alagoana de Graciliano Ramos.
Dona Senhorinha se foi, o sítio, o pátio de terra batida, as galinhas continuam e o povo que rodeia aquele lugar também. Sim, é o Brasil todo, 170 milhões de corpos, almas e mentes que acham graça dos dentes do presidente, fazem piada da situação mais trágica, tomam goles de purinha no boteco da esquina, comem ovo colorido, juram amor eterno às esposas e amantes e vão levando, sorriso na boca.
Vão fazer uma festa pelos 500 anos do tal descobrimento e este povo não vai ser convidado. Ainda bem. Festa oficial é como paixão de uma noite bêbada em bordel de beira-de-estrada. A festa das ruas, das vielas, das favelas, dos bairros, dos subúrbios, dos condomínios, prédios, é feita sempre, no dia-a-dia, e isso não vai ser estragado por político nenhum, mesmo que ele queira.
Sabe por quê? Verde, amarelo, cor de anil, são as cores do Brasil. Um radinho movido a pilha faz festa no ouvido de quem é gente. Toca samba, ele rebola. Transmite jogo, ele grita gol. Na hora da Ave-Maria, ajoelha, pede perdão pelos pecados, conversa com Deus, diz que dá para levar em frente e vai ver o rabo daquela morena que o mata de tesão e carinho.
Ovo frito com arroz é prato maravilhoso. Calango ensopado dá para lamber os beiços. O patrão que não faz sexo enche o saco, certo?. Mas ele não sabe o apelido que recebeu da moçada e nunca vai ser convidado para a pelada seguida de cervejada no sábado de sol.
O massacre da falta de tudo é forte, mas ninguém vai conseguir escravizar o espírito. Sempre foi hora desta gente bronzeada mostrar o seu valor. Ele sempre foi mostrado, mas o problema é que a própria galera não se deu conta do brilho próprio. Não, não é aquela beleza da pobreza alardeada pelo redondo e delirante ministro dos Esportes. É outra coisa, nunca destrinchada nos conformes pelos nossos intelectuais.
Isso porque são raríssimos os casos dos gênios que foram sentir o cheiro do povo in loco. Fazer o raio X da alma de um povo fruto da miscigenação de bandidos, índios, negros, portugueses e o escambau, é difícil, principalmente para quem nasceu sob a saia da mãe, foi criado em biblioteca e nunca colocou o pé descalço em barro.
Sim, claro que acredito. Principalmente quando vejo na televisão o Ratinho mostrando um pouco da nossos irmãos. Coisa que choca a turma que resolve o Brasil no boteco e os metidos a besta porque nunca entraram no vermelho bancário. Mundo cão? Sim, o mundo da ninguenzada (obrigado, mestre João Antonio) é canino, mas no canil o sol brilha, a cachorrada quer trabalhar, é honesta e acredita sempre na conversa do engravatado que pede votos, diz que vai resolver os problemas da saúde, educação, trabalho e, depois, se esconde nos palácios suntuosos do poder.
Talvez, por isso, gozamos, de todos os jeitos. E festamos, com o mínimo/máximo que nos resta. Ou seja, a vida verde, amarela, cor de anil.
- ROBERTO JOSÉ DA SILVA é jornalista em Curitiba.


