O Oscar, o FMI e o capeta - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de março de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Muita gente pode dizer que perdemos o Oscar porque a indústria cinematográfica norte-americana só premia a si própria, e mesmo assim através de cartas marcadas, de acertos prévios de bastidores. Em parte isto pode ser verdade. Digo em parte porque existem prêmios também para filmes estrangeiros. Quanto à questão do chuncho, essa velha e arraigada instituição brasileira sempre presente em nossas premiações, concorrências, concursos públicos, etc., deve também existir por lá. Entretanto, convenhamos, que na área dos arranjos encomendados somos campeões, talvez, mundiais, sendo que nem os Estados Unidos jamais poderiam nos alcançar num torneio de antivalores baseado no dá-se um jeito e na lei de Gerson.
De todo modo, mesmo considerando a maestria de uma atriz como Fernanda Montenegro, a grande dama do nosso teatro, temos que admitir que nunca soubemos fazer cinema. Produções cinematográficas em solo pátrio, de modo geral, não passam de exibição de sexo explícito, de enxurrada de palavrões, de pornochanchadas de mau gosto. E mesmo quando pretende ser arte engajada, exibindo nossa pobreza ou tentando constituir-se em protesto político, o cinema nacional continua apenas apresentando características de sordidez e feiúra humanas, ou do ranço nacionalista e ideológico que lembra um Parque dos Dinossauros subdesenvolvido e sem efeitos especiais, mesmo porque nosso cinema tem imagem e som ruins.
E por favor não me digam que é assim porque falta dinheiro aos cineastas. O problema é cultural. O mesmo que atualmente faz aparecer na televisão e na música popular uma baixíssima qualidade que é consumida com contentamento ou indiferença, e pontilhada com alguns débeis protestos. De fato, está nos faltando requinte, beleza, sofisticação, atributos da verdadeira arte em todas suas manifestações. E não venham me dizer que esta maneira de pensar é elitista. Se dermos arte de verdade ao povo, ele a consumirá, pois inclusive o circo pode apresentar arte numa de suas expressões populares mais belas.
Portanto, se perdemos o Oscar, fundamentalmente foi porque nosso cinema é ruim. E colocar a culpa, por exemplo, no FMI, não vai alterar essa realidade, além de ser ufanismo com característica de dor-de-cotovelo.
Curiosamente, parece que o ódio tão latino-americano ao FMI reacendeu no Brasil, depois que o governo recorreu recentemente a este organismo para nos tirar do aperto. Agora, além do neoliberalismo eleito o satanás do final do século, temos o velho capeta FMI que nos faculta novamente a tentativa de explicar nossos fracassos econômicos, nossas frustrações políticas, nossas diferenças sociais. Desse modo, tudo que existe de mal neste país é culpa do FMI.
Abre-se o jornal e lá está: 200 sem-terra saquearam um caminhão com 14 toneladas de açúcar perto do Recife. O líder do MST, Jaime Amorim, explica que o saque foi uma forma de luta contra a política de submissão do governo Fernando Henrique ao FMI.
Amorim - um dos caudilhos do Movimento que pode ser sintetizado como uma mistura de guerrilha tupiniquim e cangaço - pode figurar com destaque no Manual do perfeito idiota latino-americano, de autoria de Carlos Alberto Montaner, Alvaro Vargas Llosa e Plinio Apuleyo Mendoza.
Ao mesmo tempo, seria interessante que Jaime Amorim e tantos outros, como o velho caudilho Leonel Brizola (sendo que este vive na TV pregando abertamente e à sua maneira autoritária, o golpe de Estado contra o presidente Fernando Henrique) lessem o Manual para se inteirar de que a seca do Nordeste, as enchentes do Sul, os ocasionais e mal explicados blecautes, não acontecem por culpa do FMI. Tampouco é este um Organismo filantrópico ou de caridade, competindo-lhe impor certas regras para que sua ajuda surta algum efeito em débeis e desorganizadas economias que lhe solicitam espontaneamente ajuda. Ao mesmo tempo, como explicam os autores do Manual, o Fundo Monetário Internacional não é receita de prosperidade nem passaporte para o êxito. As soluções para as crises não são trazidas nas pastas dos engravatados funcionários do FMI, mas repousam nas instituições dos países que solicitam ajuda.
Também Carlos Rangel, no seu livro Do bom selvagem ao bom revolucionário, tenta esclarecer que nossos demônios são outros bem diversos, e que não somos pobres porque existe o FMI ou porque os norte-americanos são ricos, outra falácia tão latino-americana.
Conforme Rangel, se procedêssemos cientificamente, fazendo o balanço completo e não truncado das ações norte-americanas, perceberíamos que a contribuição dos Estados Unidos para a América Latina geraram consideráveis efeitos benéficos que não soubemos aproveitar por causa de deficiências das nossas próprias sociedades, deficiências que são exclusivamente nossas e que existiram muito antes de nossas relações com os Estados Unidos.
Concluindo, não perdemos o Oscar por causa do capeta do FMI. Os altos funcionários deste organismo, com toda a certeza, nem sabiam que estávamos concorrendo.
Quanto aos golpistas Brizola, Lula e Itamar Franco, se numa terrível hipótese, e por esses cruéis acasos do destino, chegassem à Presidência da República, também recorreriam ao FMI se a isso fossem obrigados. Mas para desespero do trio e felicidade nossa, a crise vai sendo debelada. Os juros e o dólar caíram, as bolsas subiram, a inflação não aumentou como previram os cultores do quanto pior melhor .
Crise? A crise é o que está na boca dos especuladores, na mensagem antidemocrática dos golpistas sedentos de poder, nas desculpas fáceis para não ajudar alguém. O resto é trabalho, imaginação e vontade.


