O Oscar não descobriu o cinema brasileiro
Não é só crítica: é consumo, adesão e interesse real
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sexta-feira, 20 de março de 2026
Não é só crítica: é consumo, adesão e interesse real
Mili Alves 
Nos últimos anos, o cinema brasileiro deixou de ser promessa para se tornar presença nos maiores palcos do mundo, e seu recente destaque em premiações internacionais marca mais do que uma conquista: aponta uma mudança de olhar. É como se, de repente, nossas histórias ganhassem a atenção que por tanto tempo lhes foi negada.
Há algo de profundamente simbólico em ver o Brasil sendo aplaudido lá fora, pois atravessar essas fronteiras não é só bonito. É revelador. Afinal de contas nosso cinema não está tentando aparecer, ele já é relevante há muito tempo. A diferença é que agora está sendo visto.
Em 2025, o Brasil conquistou seu primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional, com Ainda Estou Aqui, mas antes disso o país já havia sido indicado com obras como Central do Brasil (1998) e O Pagador de Promessas (1963), que também venceu a Palma de Ouro em Cannes – um feito histórico naquele momento. A dobradinha de indicações ao Oscar em 2025 e 2026 com Ainda estou Aqui e O Agente Secreto, e suas respectivas premiações anteriores, como Globo de Ouro, não é um fenômeno isolado, mas sim um ciclo que amadureceu. O Brasil não “chegou agora”, ele sempre esteve nos grandes palcos, ainda que pouco reconhecido pelo próprio público. Portanto, não é novidade. É visibilidade tardia.
Com o momento de ascensão global, as produções brasileiras tiveram um aumento de até 60% de audiência em plataformas de streaming internacionais, o que representa, para além das premiações, um interesse global crescente nas nossas histórias e nos coloca como protagonistas da América Latina no cinema ocupando a 2ª entre países latinos com mais indicações a grandes prêmios internacionais. As produções brasileiras chegaram a representar mais de 30% do público em determinados períodos desde 2024.
Não é só crítica: é consumo, adesão e interesse real.
E o que isso nos revela? Ganhar um Oscar é maravilhoso e adoraríamos ter visto isso novamente no último dia 15, mas nosso significado não depende dele. Que talvez o cinema brasileiro nunca tenha precisado provar que é bom, apenas ser visto com menos desconfiança e mais disponibilidade. Porque quando o mundo se emociona com histórias que nascem aqui, o que está em jogo não é só reconhecimento internacional, mas um convite silencioso para que nós mesmos revisitemos nossos próprios olhares. Valorizar o que é nosso não deveria ser um ato de resistência, mas de pertencimento. E, quem sabe, esse seja o verdadeiro prêmio: quando a gente finalmente se reconhece naquilo que sempre teve valor.
O mundo já entendeu.
Mili Alves, analista de comunicação.


