O Oscar das dignidades perdidas - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de março de 1999
Walmor Maccarini 
Mais um Oscar não ganho, e isto nos impulsiona a reescrever coisas já ditas. Como a de que temos muitos Oscar a conquistar antes do Oscar da Academia de Hollywood. Ganhar o Oscar não é a coisa mais importante do mundo, mesmo porque é uma instituição norte-americana criada para premiar seus próprios filmes. Tem a ver com sua própria indústria cinematográfica. Os americanos não têm culpa se ficamos embasbacados com esse prêmio. Eles o instituíram para estimular seus produtores e artistas, até porque ignoram que algo mais exista de grande valor fora dos limites de sua inteligência, mas - para não perder nichos do mercado - resolveram estendê-lo e premiar também filmes estrangeiros. E aí entramos nós. Poderíamos muito bem ir dormir sem essa e sofrer menos.
O Oscar transformou-se em símbolo de qualidade. Então, um grande Oscar que nós brasileiros ainda temos que conquistar será o resgate de nossa própria identidade como cidadãos cônscios e responsáveis perante as obrigações com a pátria e com a vida. Melhor que a glória fugaz de um prêmio cinematográfico será recuperar, ante os olhos do mundo e os nossos próprios, o Oscar das nossas dignidades perdidas. Temos ainda que produzir um Brasil sério e melhor de se viver, e aí nos habilitarmos ao Oscar dessa categoria. Melhorar nossa qualidade de atendimento público da saúde, para evitar que pacientes morram nas macas pelos corredores dos hospitais; eliminar as filas diante dos postos de serviço do INPS, e aí, quando forem premiar estas categorias, podermos erguer a cabeça para ouvir: The Oscar goes to Brasil!
Falta-nos produzir aquele filme baseado em fatos verdadeiros com o cenário de milhões de moradias decentes para os tantos que não as possuem; de mais e melhores escolas; de mais e melhores centros de excelência de saúde. Um filme com um cenário real de negócios prosperando e cidadãos trabalhando, dignamente empregados e bem remunerados. Um filme real que resgate nossa cidadania, nosso auto-respeito e nossa auto-admiração. E então nos inscrevermos para o Oscar dessas modalidades.
Aí poderíamos atravessar madrugadas assistindo à entrega desses Oscar, ao vivo ou pela TV, e delirar de ufanismo a cada vez que o mestre-de-cerimônias anunciasse, em inglês - se for estrangeiro - que The winner is Brasil, ou em bom brasilês - se for brasileiro - que O vencedor é o Brasil!
O cineasta Walter Salles e a atriz Fernanda Montenegro fizeram bem feita a sua parte, e seria bom, e merecedor, que houvessem ganhado o Oscar. Mas se ainda não foi desta vez, que não nos mortifiquemos por isto. A obra não perdeu a sua grandeza.
Que bom se pudéssemos nos habilitar a um Oscar na categoria de povo mais bem alimentado do mundo, nós a quem a Providência Divina contemplou com todo o instrumental para produzirmos, de sobra, para nós e para a humanidade inteira. Mas não. Achamos que coisa de roça é coisa caipira... Não tem o glamour e a cintilância de algo que possa ser avaliado sob os holofotes de Beverly Hills.
O problema central do Brasil não é haver perdido mais este Oscar. Ganhá-lo não é ruim, perdê-lo não tem importância. O que não pode é isto virar obsessão nacional.
Bom se começássemos a investir no monumental projeto de um cenário brasileiro real, sem a presença de personagens como os barriga-vazia, os sem-saúde, os sem-estudo, os sem-moradia, os sem-emprego, os sem-esperança, os velhos desamparados, as crianças abandonadas em meio à multidão das ruas, os milhares de jovens que se desviaram pelos caminhos da prostituição e das drogas, os sem-objetivos e os sem-metas, os indiferentes e os desencantados! Ah, os desencantados, estes são os casos mais graves!
Um filme autêntico, baseado em acontecimentos verídicos, sem os nossos já conhecidos defeitos especiais...
Bom se fôssemos uma nação que pudesse instituir um Oscar para premiar os nossos políticos. Ficaríamos muito orgulhosos e ufanos se pudéssemos outorgá-los em grande quantidade. Um Oscar para todos aqueles que detêm alguma forma de poder e que fizessem por merecê-lo, diante de seu desempenho à testa de empresas e instituições. Melhor ainda um Oscar para cada cidadão brasileiro que fizesse jus a ele.
Nos equivocamos ao imaginar que troféus eventuais nos enriquecem aos olhos do mundo se junto com eles não ostentarmos também aqueles que exaltem a dignidade humana.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


