O ordinário da vida
Bem dizia Dostoievski, que o mistério da existência humana não é apenas manter-se vivo, mas encontrar algo pelo que viver
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de dezembro de 2025
Bem dizia Dostoievski, que o mistério da existência humana não é apenas manter-se vivo, mas encontrar algo pelo que viver
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
“A vida acontece nos intervalos; o diabo está nos pormenores”. Todos os dias escutamos estas expressões e outras similares. Penso que devemos parar para observá-las de perto. São mais pertinentes do que a priori pareceriam. A razão, é de que somos impulsionados por uma potente e inata vontade de grandes feitos e memoráveis acontecimentos. Daqueles que a história registra em estátuas e nomes de ruas. O desejo de sermos heróis com potencial de inolvidáveis, nos atropela diuturnamente. Buscamos tão desesperadamente o grande, o maior, o longínquo, que atropelamos o essencial, o vital. Somos de fato, promotores de um esvaziamento ontológico, enquanto pavoneamos as nossas ações revestindo-as de penduricalhos barulhentos e ocos. Ufanamo-nos e brindamos os eventos que, em ocorrendo, nos locupletariam ao olimpo das celebridades. Abominamos o ócio, a quem atribuímos caracteres de vagabundice, pois a vida brota do trabalho e da produção. Em suma, detestamos os intervalos!
Se tem algo que me seduz nos Evangelhos, é a capacidade do Mestre de revelar toda a sua sabedoria no ordinário, no cotidiano, nas pequenas coisas. É uma semente, potencialmente árvore grande; é a criança que brinca na praça; é uma pescaria infrutífera; é um caixão de um filho único a caminho do cemitério; é um pedaço de pão que se multiplica na partilha; são inúmeras refeições descontraídas com amigos, sacramento da proximidade e da salvação do ser humano. Em Jesus, nada é grande e inatingível! Tudo é pequeno, interior e tocável! Ele não corre, anda! Ele não grita, fala! Ele não veio homem feito, nasceu bebê! Na Bíblia, o tempo não é cronos e sim kairós! O tempo não se esvai em minutos e horas, mas dá tom, cor e textura aos gestos, por mais ínfimos que sejam! Na Bíblia ninguém tem pressa. Todas as caminhadas são existenciais e não físicas! Na poeira da Palestina, os passos conduzem ao coração e não a lugar algum distante!
Bem dizia Dostoievski, que o mistério da existência humana não é apenas manter-se vivo, mas encontrar algo pelo que viver. Ora, se um segundo nascimento seria a descoberta do sentido para a nossa vida, então, garimpar o que está entre parêntesis, nas paragens da vida (os gregos chamavam de “epochê”), apresenta-se como caminho de verdadeira sabedoria; aquela que dá brilho e cor ao roteiro da vida humana. A capacidade de observar, contemplar, emudecer e tornar-se empático, é um caminho seguro de aproveitamento dos dias, que são o grande palco de nosso show. Os fatos corriqueiros são milagrosos, tanto quanto!
Quando assinamos um contrato é prudente lermos as pequeninas letras, uma vez que elas podem fazer grande diferença no acordo. Pergunto ao leitor, quem o costuma fazer? O ato de viver, por sua vez também, parece refutar os pormenores, empurrando-os para um limpo inócuo. Trata-se de letrinhas que não fazem história! São os cumprimentos apressados, as palavras que não ouvimos por distração, os beijos que não demos, as brincadeiras que nos pareceram perda de tempo, as noites mal dormidas, os filhos que cresceram sem nos darmos conta. Quantos “pormenores”! E nos nossos lábios a perene reclamação de que o tempo é nosso inimigo, porque nos rouba as oportunidades que tanta almejamos para deixar a “nossa marca”!
Tenho comigo algumas certezas. A primeira delas, é de que são os anônimos labutando no ordinário da vida que fazem a verdadeira história. Não importa se reconhecidos ou não! E a outra, é de que as pessoas que investem a sua atenção no essencial, nos pormenores, nos detalhes, são mais felizes. Contudo, o que me parece verdadeiramente importante é a qualidade de vida que botaria de uma sociedade que investisse mais nos relacionamentos e nos contatos pessoais.
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina
***
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


