Desde que o cabo entrou sorrateiramente sala de visitas adentro e passou a nutrir de sons e imagens o televisor, instalado estrategicamente entre livros, estes têm sido cada vez mais relegados ao pó e ao olvido. A preguiça do fim de um dia de tediosa leitura de jornais, tarefa de comentarista, tem destruído a atividade que sempre fora mais prazerosa da vida inteira: ler um bom livro, solitária e atentamente, como convém.
Um filme regular, uma partida de vôlei num ginásio argentino, um documentário penoso sobre algum assunto interessante, como, por exemplo, estratégia na Segunda Guerra Mundial, ou os causos de Greenville têm relevado ao segundo plano o livro novo de Mário Vargas Llosa. O amigo Wladir Dupont o mandou do México há um mês, mas o volume ainda nem foi aberto. Trata-se de um vício terrível, este descrito pelo jornalista e historiador inglês Paul Johnson em artigo para ‘‘The Spectador’’ de 24 de maio. Descobri que pode até ser fatal, ao adiar novamente a leitura de Vargas Llosa para acompanhar Vasco X Volta Redonda, jogo que sequer influía na sorte do Flamengo no campeonato carioca, que, completamente desmoralizado, jamais chegará a um bom termo.
No artigo, Johnson descreve como se contrai tal vício e que terapia deve ser adotada para a cura. Seu ângulo não é tanto o do telespectador, mas mais o do profissional que, por vaidade, se instala do outro lado, à frente da câmera. Este também me tem sido familiar. A exemplo do mestre inglês, que frequenta estúdios de televisão desde 1953, passei a visitá-los esporadicamente, como convidado em entrevistas coletivas, faz um bom tempo.
Ao tomar minha cota diária de um minuto e meio de fama, ouvi de Marcos Wilson, que fundou o departamento de jornalismo do SBT: ‘‘Sua vida vai mudar completamente. Para começo de conversa, risque a palavra ‘privacidade’ de seu dicionário’’. Imaginava que ele estava certo, mas não tinha idéia de quanto.
Paul Johnson contou no texto citado que expor as bochechas, onde antigamente mamãe passava talco, significa atender telefonemas de desconhecidos no escritório ou, pior ainda, no recesso do lar, com aquele tom de camaradagem que só é aceitável em amigos de infância. Conte com olhares ansiosos seguindo seus movimentos onde estiver. Ou com abordagens do tipo: ‘‘Vi seu programa ontem na Bandeirantes’’. Mas o diabo do programa passou no SBT.
As opiniões de Paul Johnson não admitem meio termo. O mesmo escritor que mandou Picasso para o inferno no título de seu último livro não aliviou, ao descrever o que a ‘‘caixinha da idiotice’’ contém. Segundo ele, ‘‘a televisão é o inimigo da civilização, a ameaça-em-chefe ao bom gosto, à moral e à decência, a corruptora do jovem e a estimuladora cotidiana da depravação e da violência’’. É pouco ou quer mais? Portador de todo esse asco, o historiador dos cristãos, dos judeus e dos tempos modernos só podia fazer, como fez, o voto de não aparecer mais no vídeo.
Pois ele fez. Só que, debaixo do edredom, dirigindo ao televisor aquele olhar estúpido que consagrou Peter Sellers como ‘‘videota’’ no filme de sucesso, me banhei todo de prazer, vendo, quem diria, o próprio Paul Johnson entrevistado por Geneton Moraes Neto, direto de Londres para o Milênio, no canal de notícias da Net.
A entrevista, como se diz na gíria, valeu. Quanto ao viciado que lhes escreve, este nem precisava falar, pois o programa foi um raro momento de inteligência e sabor na programação insípida. Nele, Paul Johnson lamentou a perda de valores morais neste século em que vivemos, mas comemorou um fato: não ocorreu a anunciada morte de Deus. No gramado, que só tem verde tão itenso lá na Grã Bretanha, ou no cenário doméstico emoldurado por lombadas de livros antigos, ele emitiu um discurso na contramão da mesmice politicamente correta destes nossos dias de submissão ao crack eletrônico. O pastor malcriado, mas sedutor, pregou o sermão da volta da velha moral e dos bons costumes do passado e a substituição da estupidez padronizada pela inteligência plural.
Segundo esse sermão, a televisão tem roubado do homem de hoje imaginação e individualidade, sacrificados à vaidade, única explicação que ele encontra para alguém se permitir dar as caras no vídeo. Este, de acordo com a opinião de seu amigo Malcolm Muggeridge, devora os próprios filhos, como Saturno.
Antes que Zeus apareça para punir Saturno via satélite, me pergunto se eu também não posso ceder à mesma vaidade vã que levou Paul Johnson em pessoa a quebrar seu voto, atravessando o Atlântico inteiro na seringa eletrônica de uma droga que vicia mais do que a religião. Isso nem Marx, ancestral ideológico de seus desafetos, conseguiu prever.

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