A América Latina está num momento de definição quanto ao seu futuro. Depois de mais de uma década de reformas mais ou menos profundas, dependendo do país, mas todas basicamente sob o signo do livre mercado e do neoliberalismo, a situação é tremendamente confusa. Os mercados se abriram, a inflação está sob controle, o déficit público é mantido sob estrita supervisão, mas o desemprego aumenta, a dívida social não pára de crescer e a diferença entre ricos e pobres não diminui. Os mercados financeiros vivem num estado de permanente euforia, mas não afastam a sensação de que, em termos de infra-estrutura política e social, caminha-se muito lentamente. Para discutir tudo isso e lançar um olhar para o próximo século, lideranças de cerca de 20 países se reuniram em Miami, dias 11 e 12 de setembro, na ‘‘Americas Conference’’, promovida pelos jornais ‘‘Gazeta Mercantil’’ e ‘‘Miami Herald’’.
Convidado a participar do painel ‘‘Telecomunicações & Tecnologia nas Américas’’, presidido pelo dr. Luís Lauredo, presidente da Geenberg & Traurig Consultores, tivemos oportunidade de estar junto com o vice-presidente da Lucent Tecnhologies (Coral Gables), a vice-presidente corporativa do Grupo Cisneros (Nova York) e o presidente do Grupo AKI, International (Miami). Nossa intervenção teve como objetivo apresentar um panorama das telecomunicações no Brasil, com ênfase no processo de privatização do setor.
Mostramos como o Brasil vive um fascinante momento de mudança, sob a orientação do presidente Fernando Henrique Cardoso, um autêntico estadista que vem conduzindo, com competência, o projeto de transformação do país. A reorganização da economia, que havia atingido um estado de deterioração que ameaçava inviabilizar o país, aliada à estabilização da moeda e a reforma do Estado, é o ponto de partida para a inserção do Brasil num mundo globalizado e competitivo. Estamos experimentando a dura tarefa de lutar contra preconceitos enraizados num nacionalismo superado, pois só assim o país pode equipar-se para o futuro. Por todas esses fatores, podemos afirmar que o Brasil é, sem dúvida, um excelente negócio para os grandes investimentos internacionais.
A partir dessa transformação que se está operando, pudemos apresentar, aos mais de 300 participantes, a maioria empresários e homens de imprensa, o nosso país como um campo fértil para o capital internacional. Não, evidentemente, o capital meramente especulativo, que não cria raízes e desaparece tão rapidamente quanto chega, mas principalmente o investimento produtivo, capaz de contribuir de forma decisiva para o desenvolvimento do país. E isto já se faz notar em diversos setores como, por exemplo, o financeiro e o da indústria automobilistica. Mas mostramos que, indubitavelmente, o setor das telecomunicações é o mais rico filão da atualidade para o investimento internacional.
É impossível negar que o tratamento dado pelo governo federal ao setor de telecomunicações, especialmente pela presença forte do ministro Sérgio Motta, fez com que superássemos o atraso em que nos encontrávamos. A década de 80 foi de retração nos investimentos do setor. Mas os investimentos pesados dos dois últimos anos, os passos corajosos na direção da quebra do monopólio do setor com a mudança da lei e o incentivo aos investimentos privados tornam verdade a afirmação de que, hoje, o setor das telecomunicações é um dos mais atraentes e lucrativos para os investimentos privados, nacionais e internacionais.
O interesse demonstrado pela platéia, especialmente nas abordagens posteriores, é representativa do interesse despertado pelo Brasil. O cronograma da privatização do setor foi ressaltado como um modelo de rapidez e eficiência. Não faltaram os que observaram que o Brasil, apesar de ter iniciado seu processo de privatização com um atraso de quase 10 anos em relação a outros países da América. Latina, hoje está à frente dos demais. E com um processo de privatização capaz de estimular a competitividade e a melhoria da gestão, e não uma mera privatização selvagem que ‘‘expulsa’’ o Estado sem que se estabeleçam mecanismos eficientes de preservação e controle do interesse público.
O saldo da ‘‘Americas Conference’’ foi muito positivo. Cobrindo uma ampla gama de aspectos, como políticas nacionais, informações técnicas, desenvolvimento de infra-estruturas e estratégias financeiras, apresentou um panorama social e econômico da América Latina e o confrontou com os interesses da ‘‘outra’’ América, a do Norte. Mercosul e Alca constituíram o pano de fundo dos debates. Enfim, um olhar da América ‘‘de lᒒ sobre a América ‘‘de cᒒ, mas um olhar sob o signo do respeito, do debate e do interesse mútuo.
- ÁLVARO DIAS é ex-governador do Paraná e presidente da Telepar

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